segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh XV



Van Gogh, Noite estrelada.


MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF


[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]



No restaurante do hotel a inocência dos ricos

O olhar fleumático sobre a fome no mundo

O meu lugar é entre as cadeiras O meu sonho

Cortar a garganta engelhada da viúva na mesa vizinha

Com a faca do criado

Que lhe trincha o lombo de cordeiro Eu

Também não cortarei esta garganta

Durante a minha vida não farei nada de semelhante

Não sou Jesus Quem traz o gládio Eu

Sonho com gládios Sabendo que mais tempo do que eu

Durará a exploração em que tomo parte

Mais tempo do que eu a fome que me alimenta

O terror da violência é a sua cegueira

E os poetas sei-o mentem em demasia

Villon pôde ainda abrir as goelas

Contra a nobreza e o clero não tinha nem cadeira nem cama

E conhecia as prisões por dentro

Brecht enviou Ruth Berlau a Espanha e escreveu

Na Dinamarca AS ESPINGARDAS DA MÃE CARRAR

Gorki enquanto circulava por Moscovo puxado por dois cavalos

Odiava a pobreza PORQUE ELA HUMILHA Porquê

Apenas os pobres Maiakovski já se tinha

Condenado ao silêncio com o seu revólver

As mentiras dos poetas estão gastas

Pelos horrores do século Nos balcões do Banco Mundial

O sangue seco tem o cheiro a cosmético frio

O vagabundo a dormir frente ao ESSO SNACK & SHOP

Contradiz o lirismo da revolução

Eu passo de táxi Posso

Permitir-me Benn pode falar disso à vontade Ele não

Ganhou dinheiro com os seus poemas e teria

Esticado o pernil mesmo sem as dermatoses e as doenças venéreas

Na noite do hotel o meu palco

Não está mais aberto Os textos

Vêm sem rima a língua recusa o verso branco

Frente ao espelho quebram-se as máscaras Nenhum

Comediante me tira o texto Eu sou o drama

MÜLLER NÃO ÉS UM OBJECTO POÉTICO

ESCREVE PROSA A minha vergonha precisa do meu poema




in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF de Mão Morta

segunda-feira, 12 de Outubro de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh XIV



Van gogh, Auto-retrato.

ANJO AZARENTO 2


[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Mão Morta]



Entre cidade e cidade

Depois do muro o abismo

Vento nos ombros Estrangeira

A mão sobre a carne solitária

O anjo ouço-o ainda

Mas já não tem outro rosto senão

O teu que eu não conheço



in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF de Mão Morta

sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh XIII



Van Gogh, Os sapatos.

CARTA DE ANO NOVO 1963


[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]



Um ano findou-se no barulho

Dos sinos e dos fogos de artifício. O jornal

Que será trazido dentro de uma hora

A ti na tua cidade a mim na minha cidade

Por uma velha mulher com as suas velhas pernas

Três filhos mortos na guerra mas nenhum jornal

O REICH O NEUES DEUTSCHLAND O RHEINISCHER MERKUR

Anunciará um melhor ano como de costume

E o que é negro no teu jornal tu sabe-lo

É branco no meu jornal nós sabemo-lo

Sem cessar a erva cresce na fronteira

E a erva deve ser arrancada

Sem cessar que cresce na fronteira

E os arames farpados devem ser plantados

Sem cessar pela bota cardada

EU SOU A BOTA QUE PLANTA OS ARAMES FARPADOS

Frente à minha janela sobre uma árvore do parque

Só como um bêbado na madrugada

Uma velha gralha bate ruidosamente as asas

Os varredores municipais ALL OUR YESTERDAYS

Começaram o seu trabalho

Muitas coisas voltam muitas outras não

O coração é um grande cemitério

NO PARQUE OS CHOUPOS SUSSURRAM

QUEM MORA NA MINHA CABEÇA



in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF de Mão Morta

quinta-feira, 8 de Outubro de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh XII



Van Gogh, O semeador.

ONTEM PELA TARDE ENSOLARADA


[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Mão Morta]



ONTEM PELA TARDE ENSOLARADA

Circulando através de Berlim a cidade morta

No regresso de um qualquer país estrangeiro

Senti pela primeira vez a necessidade

De ir desenterrar a minha mulher ao seu cemitério

Eu próprio deitei sobre ela duas pazadas cheias

E de ver o que dela ainda resta

Os ossos que nunca vi

De segurar o seu crânio na minha mão

E de imaginar o que era o seu rosto

Por detrás das máscaras que trazia

Através de Berlim a cidade morta e de outras cidades

No tempo em que estava vestido com a sua carne



in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF de Mão Morta

quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh XI



Van Gogh, A vinha encarnada.

MEDEASPIEL


[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]



Uma cama desce da teia e é colocada de pé. Duas mulheres com máscaras mortuárias trazem para o palco uma jovem rapariga e instalam-na de costas na cama. Vestir da noiva. Atam-na à cama com o cinto do vestido de noiva. Dois homens com máscaras mortuárias trazem o noivo e põem-no de cara voltada para a noiva. Ele faz o pino, caminha sobre as mãos, pavoneia-se frente a ela, etc; ela ri silenciosamente. Ele rasga o vestido de noiva e toma lugar ao lado da noiva. Projecção: acasalamento. Com os farrapos do vestido de noiva as máscaras mortuárias homens atam as mãos e as máscaras mortuárias mulheres os pés da noiva às extremidades da cama. O resto serve de mordaça. Enquanto o homem, frente ao seu público feminino, faz o pino, caminha sobre as mãos, pavoneia-se, etc, o ventre da mulher incha até que rebenta. Projecção: parto. As máscaras mortuárias mulheres tiram uma criança do ventre da mulher, desfazem os seus nós e metem-lhe a criança nos braços. Durante esse tempo as máscaras mortuárias homens cobriram-no de tal modo de armas que o homem não pode mais mover-se senão a quatro patas. Projecção: massacre. A mulher desvia o seu rosto, desfaz a criança e atira os pedaços na direcção do homem. Da teia caem sobre o homem restos de membros entranhas.


in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF de Mão Morta

quinta-feira, 1 de Outubro de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh X



Vvan Gogh, Café á noite.

AUTOCRÍTICA 2 CHAVE PARTIDA


[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]



Porta Interdita de Barba Azul Sonho interdito

As mulheres mortas no quarto usado pela dança

Nenhuma chuva lava o sangue da chave

Nenhum túmulo cobre a morte na tua retina

Nenhum anjo faz explodir com um bater de asas o teu quarto

As mulheres mortas devoram o teu sonho

O último aperto é o tribunal militar

No ano do eufórbio tu verás a sua cara



in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF de Mão Morta

quarta-feira, 30 de Setembro de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh IX


Van Gogh, Noite estrelada.

AUTO RETRATO DUAS HORAS DA MANHÃ 20 DE AGOSTO DE 1959


[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]



Sentar à máquina de escrever. Folhear

Um romance policial. No fim

Saber o que agora já sabes:

O secretário de cara lisa e barba dura

É o assassino do senador.

E o amor do jovem sargento da brigada criminal

Pela filha do almirante é correspondido.

Mas não saltarás de página.

De vez em quando, folheando uma, um olhar rápido

Sobre a folha em branco da máquina de escrever.

Isto ao menos vai-nos ser poupado. Melhor que nada.

No jornal estava escrito: algures, uma aldeia

Foi arrasada por um bombardeamento.

É lamentável, mas o que é que tens a ver com isso.

O sargento está a impedir o segundo assassinato

Apesar da filha do almirante lhe oferecer (pela primeira vez)

Os lábios, serviço é serviço.

Não sabes quantos morreram, o jornal desapareceu.

Ao lado, a tua mulher sonha com o seu primeiro amor.

Ontem tentou enforcar-se. Amanhã

Vai cortar os pulsos ou que sei eu ainda

Ao menos tem um objectivo em vista

Que atingirá de uma maneira ou de outra.

E o coração é um vasto cemitério.

A história de Fátima no Neuen Deutschland

Estava tão mal escrita que te fez rir.

A tortura é mais fácil de aprender que a descrição da tortura.

O assassino caiu na armadilha

O sargento aperta a recompensa nos seus braços.

Agora podes dormir. Amanhã será um novo dia.

 
in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF de Mão Morta

terça-feira, 29 de Setembro de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh VIII



Van Gogh, No limiar da eternidade

ONTEM COMECEI


[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / António Rafael]



ONTEM COMECEI

A matar-te meu amor

Agora amo

O teu cadáver

Quando eu estiver morto

O meu pó gritará por ti



in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF de Mão Morta

segunda-feira, 28 de Setembro de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh VII



Van Gogh, Uma mulher lendo


A VENTURA DA PRODUTIVIDADE: A NOIVA DO SOLDADO


[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Adolfo Luxúria Canibal]



Uma rapariga sem braços com uma perna de pau

Frente a uma paisagem marítima, grávida.

Barata: não pode ir-te aos bolsos.

Cómoda: não se gruda ao teu andar.

SEM BRAÇOS É SEM PERIGO. Não pode

Correr atrás de ti: se tu partes

Tu partes.

Acenas-lhe talvez um pequeno adeus.

Apesar de tudo ela ainda tem olhos (dois).

Quatro mil raparigas sem braços abraçam-te

Quatro mil raparigas grávidas com pernas de pau

Seguem-te o rasto


in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF de Mão Morta

sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh VI



Van Gogh, Augusa Segatori sentada no café Le Tamborin

REVI A MALVADA PRIMA


[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Vasco Vaz]



REVI A MALVADA PRIMA

Que partiu o meu brinquedo nas suas costas

MOSTRA e eu mostrei-lho e ela pegou nele

E eu ouvi-o estalar entre os seus dedos carnudos

Vi o seu sorriso inolvidável Hoje ainda

O estalido nos ouvidos à frente dos olhos o sorriso inolvidável

Falo mal daquilo que amo por prudência

Agora ela está sentada frente a mim e não sabe nada

O terror tornou-se frio Carne e gordura

Quotidiano Gritos de crianças A imundície da espécie



in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF de Mão Morta

segunda-feira, 14 de Setembro de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh V

Van Gogh, Campo de trigo com corvos.


O PAI


[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]

Um pai morto teria sido talvez

Um melhor pai. O preferível

É um pai nado-morto.

Não pára de crescer a erva sobre a fronteira.

A erva deve ser arrancada

De novo e de novo que cresce sobre a fronteira.

Gostaria que o meu pai tivesse sido um tubarão

Que tivesse despedaçado quarenta baleeiros

(E no seu sangue eu teria aprendido a nadar)

Minha mãe uma baleia azul meu nome Lautréamont

Morto em Paris

1871 desconhecido.

in, MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF de Mão Morta

domingo, 6 de Setembro de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh IV

Van Gogh, O quarto

INFÂNCIA


[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / António Rafael]

Aquele que agarrava o gato sob as facas dos seus camaradas de brincadeira, era eu.

Eu atirava a sétima pedra ao ninho das andorinhas, e a sétima era a boa.

Quando a lua se enquadrava branca na janela do quarto, no meu sono

Eu era um caçador caçado pelos lobos, só com os lobos.

Ao adormecer ouvia gritar os cavalos nas cavalariças.

in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF

sexta-feira, 28 de Agosto de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh III


Van Gogh, Flôr de amendoeira
E ENTRE DOIS VEZES DOIS E B-A BA[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / António Rafael]

E ENTRE DOIS VEZES DOIS E B-A BA
Nós mijavamos a assobiar contra o muro da escola
Os mestres tapando a boca
VOCÊS NÃO TÊM VERGONHA Nós não tínhamos
Quando a tarde caía subíamos à árvore
Onde de manhã cedo tinham colhido o morto. Vazia
Estava agora a sua árvore. Nós dizíamos: ESTE FOI-SE.
ONDE ESTÃO OS OUTROS? ENTRE RAMO E TERRA HÁ LUGAR.
in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF

quinta-feira, 27 de Agosto de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh II

Van Gogh, Auto-retrato

EU SOU O ANJO DO DESESPERO[Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Miguel Pedro]

Eu sou o anjo do desespero.

Das minhas mãos distribuo a embriaguês,

a estupefacção, o esquecimento, gozo e

tormento dos corpos.

Meu discurso é o silêncio, meu canto o grito.

À sombra das minhas asas mora o terror.

Minha esperança é o último suspiro.

Minha esperança é a primeira batalha.

Eu sou a faca com que o morto arromba o seu caixão.

Eu sou aquele que será.

Meu descolar é a sublevação, meu céu o abismo de amanhã.

in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF

quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF versus Van Gogh I

Van Gogh, Ciprestes.

VASO CORONÁRIO [Heiner Müller - Adolfo Luxúria Canibal / Mão Morta]


O médico mostra-me o filme É ESTE O SÍTIO

VEJA POR SI Tu sabes agora onde Deus mora

Cinzas o sonho de sete obras-primas

Três degraus e a esfinge mostra as suas garras

Considera-te feliz se o enfarte te apanhar de repente

Sem que um inválido mais atravesse a paisagem

Uma trovoada no cérebro chumbo nas artérias

O que tu não querias saber O TEMPO ESTÁ CONTADO

As árvores no caminho de regresso escandalosamente verdes

in MÜLLER NO HOTEL HESSISCHER HOF

domingo, 23 de Agosto de 2009

Egon Schiele "Frau mit schwarzem Haar"

" Black air"

Last night my kisses were banked in black hair
And in my bed, my lover, her hair was midnight black
And all her mystery dwelled within her black hair
And her black hair framed a happy heart-shaped face
And heavy-hooded eyes inside her black hair
Shined at me frome the depths of her hair of deepest black
While my fingers pushed into her straight black hair
Pulling her black hair back from her happy heart-shaped face
To kiss her milk-white throat, a dark curtain of black hair
Smothered me, my lover with her beautiful black hair
The smell of it is heavy. It is charged with life
On my fingers the smell of her deep black hair
Full of all my whispered words, her black hair
And wet with tears and good-byes, her hair of deepest black
All my tears cried against her milk-white throat
Hidden behind the curtain of her beautiful black hair
As deep as ink and black, black as the deepest sea
The smell of her black hair upon my pillow
Where her head and all its black hair did rest
Today she took a train to the West
Today she took a train to the West
Today she took a train to the West
Nick Cave and the Bad Seeds - in The Boatman's Call

Jackson Pollock "Number one"