quinta-feira, 23 de junho de 2016

SemTítulo


Com a caneta suspensa na mão,
disposta a arpoar os silêncios,
abordo todos os inícios numa folha em branco
como quem se abeira do bordo de um navio
e se entrega à dimensão que a espuma ilude.
A terra não tem mar que chegue ao meu horizonte.
Tem o bastante para que não baste!

Nem sempre se tem força para ser sublime,
de seguir pela sombra que dança
com a linearidade finita da luz.

Afundo-me na realidade como num mar;
as pessoas turvas e estáticas
formadas por cores flácidas e dançantes;
num outro lado, povoado
por sons abafados de opacos significados.
Essa realidade onde tudo se desmorona
e onde nada foi construido
e nada foi realmente destruido.

Entrego-me à tempestade flutuando!
Filho de rocha mãe parideira
de corajosos desistentes -
estilhaços que se abismam na vertigem dos dias,
que observam as ruínas que se erguem do lodo
e pensam em subir,
em submergir de novo,
em respirar outro mundo.
Refugiados do sonho
presos nas fronteiras da fé.
Anjos oblíquos a insistir em voar
nunca sendo os mesmos que pousam

e atravessam as portas nos muros.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

O sussurro

A cada passo que dá pelos ladrilhos ficcionados do passeio em betão, desde que sai do edifício onde se localiza o seu escritório, que ela vai fechando pastas no seu pensamento; assuntos que constituem pequenas tarefas com que o dia de amanhã vai começar. Não pensa nisso, mas repete esse exercício todos os dias. Paulatinamente, com os passos ou com as curvas e contracurvas que o carro perfaz, no quilómetro que a separa de casa, o desligar temporário das responsabilidades; o encontrar-se num outro plano em que se pode assumir mais livre, mais solta de uma pausa de pose apurada em cada ano de experiência.
Hoje segue a pé. Desliga-se mais devagar, sobretudo nos primeiros quinhentos metros onde ainda entremeia o seu silêncio progressivamente mais fundo com as boas-noites que a etiqueta, mesmo a estima que nutre por alguns transeuntes, lhe obriga a debitar. Depois, vem a ponte sobre a estrada que divide a parte central da urbe com os subúrbios onde reside a massa anónima-mas-esclarecida da classe média de que conscientemente faz parte. A par vem a constatação absoluta da espessura da noite, o calafrio do medo antigo de não existir deus à noite ou talvez apenas do vento fresco que sopra ao longo do riacho que a partir daí a acompanha.
Nessa primeira recta de caminho o seu pensamento apenas cita de cor a certeza da curva à esquerda que lhe mostrará a sua casa. Então, ao passar junto ao primeiro aglomerado de canas, o vento assume subitamente uma outra força, como se a natureza lhe transportasse palavras indecifráveis. Não porque se exprimisse mal, mas por ser ela a ignorante do código necessário ao entendimento. Assim se estancam os seus passos, como o seu olhar descai contra os sapatos cinzentos de linhas executivas. Aí, um choro convulsivo a obrigá-la a amparar-se no muro que a separa do riacho; a mão direita a segurar a testa, a proteger os olhos da violência da luminosidade fraca dos candeeiros públicos e o vento a trespassar as canas sem cessar, quais cordas vocais das almas perdidas dos infernos inexistentes a guincharem as suas penas.
Ao anúncio da passagem de um carro, quando a sua sombra dança em espiral pelo chão, recompõe-se num gesto com que retira os sapatos dos pés. Quando o caminho fica livre, pousa-os a medo no asfalto morno e irregular, como quem mede que feridas lhe pode ele provocar e até que medida está ela disposta a ferir-se se insistir em caminhar descalça. Está disposta a muito porque a dor que lhe vem de dentro é mais forte que qualquer arranhão que uma pedra de gravilha lhe possa causar.
Assim alcança a curva, medindo todos os passos para que uma pedra de gravilha não a magoe, esquecendo-se da outra dor mais concreta que ainda não definiu. Nesse ponto, os mesmos cães se aproximam dos gradeamentos das casas para lhe ladrarem os mesmos impropérios de cão a quem os donos ensinaram a não gostar de vizinhos. Ergue o olhar para a sua casa, para a luz da sala que se demarca da escuridão e, na promessa que ela lhe pode trazer de uns braços que a envolvam e que a amparem, a escuridão pouca diferença ter desse foco artificial de luz que lhe marca a meta seguinte.
Nos passos seguintes, sem que tenha reparado como, as meias rasgarem-se nas solas e as malhas contraírem-se até aos tornozelos, apertando a pele, quase como grilhetas. Olha para baixo. Sente-se a descascar. Até se imagina a deteriorar-se por completo por todos os restantes metros; a pele a desfazer-se a cada passo, como a cada passo perder tecidos dos músculos, sangue que os irriga e, desde a porta onde assoma já só com os cotos das pernas, perder membros inteiros de si a cada degrau. Chegada à porta só resta a cabeça para contra ela atirar, como quem grita socorro sem encontrar a voz, para que lhe abram um novo futuro. O companheiro ir abri-la pelo meio de uma eternidade contrariada e, ao fazê-lo, reparar primeiro no rastro de sangue e membros que povoam as escadas e, antes de dizer um cumprimento, por vulgar e monótono que fosse, perguntar sem pedir resposta “quem é que vai limpar toda esta porcaria?”. Pegar-lhe então pela cabeça, esquecendo-se do maxilar inferior em cima do tapete, colocando-a em cima da cristaleira da sala, partilhando o centro com o sírio pascal da redenção, ladeada pela inutilidade dos bibelôs. Partir, por fim, para os afazeres domésticos que outras alas do espaço clamam e deixá-la ali, na inércia que atribuímos às coisas que não no dizem nada.
Desperta quando a força que a chave lhe exige para rodar não transborda do sonho, mas de uma necessidade fútil em que começa só agora a pensar. Entra e ouve o companheiro a comentar, com a lacónica estupidez dos inúteis, “Vens atrasada!”, enquanto acende uma vela, sem cheiro e sem personalidade, no centro da cristaleira da sala.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Blá. Blá. Blá.

A tristeza, a inquietude, a ansiedade sobre as coisas inanimadas, animadas, materiais e imateriais é minha. Não pertence a mais ninguém porque não a vendi, troquei por algo do mesmo valor intrínseco, dei ou empurrei como quem dá aos outros o que não quer para si e os outros que se amanhem, os outros que se lixem. Tudo pode despoletar essa bomba, mas trata-se, felizmente para os outros, de um dispositivo de implosão que só o meu corpo corrói. Nem isso, sou eu que me tenho de dar ao trabalho de o fazer. Existem ajudas, instrumentos preciosos a esse intento; provocam destruição lenta, dolorosa, silenciosa e limpa – coisas fantásticas que a criatividade humana consegue criar. Inventam-se detonadores musicais, poéticos com musicalidade ou sem ela, literários com verticalidade melódica ou sem ela, panfletários pelo que as pessoas reclamam e, sobretudo pelo que não dizem sobre pretexto algum. Olhar-lhes as faces carcomídas de problemazinhos quotidianos e a porra da felicidade uma aura que não lhes pertence, que não querem para nada que lhes dê cor aos actos mais simples. Afoguem-se nas multidões encarneiradas do pensamento acrítico; deixem as ilhas submergir da imundice e que os vulcões expludam lavas incandescentes que ninguém jamais tocará até que petrifiquem, até que sejam seguras pela alteração química de que o frio glaciar do pensamento é um bom condutor.
Quê? Hã? Quais perguntas qual caralho que os foda a todos. Nem sobre o que não entendem se questionam; filhos pródigos do pensamento apolítico, mas de utilidade cívica no que toca a pagar impostos e a cumprir as normas dos Bons e Certinhos.
Tomem lá o meu cu, ainda que metaforicamente, para satisfazer a os vossos desejos mais profundos, nem que seja o de poderem caluniar e acusar de demência quem nunca lhes deu razões para tal. É uma merda quando a pilha de lenha já está pronta e o cabrão do acusado não quer ser queimado. A praça enche-se e depois há que encontrar razões para que o espectáculo tenha lugar, caso contrário a multidão encoleriza-se, podem mesmo atacar inocentes mais fragilizados pela imagem exterior de que também são culpados. Não, meus meninos, não se podem atacar inocentes porque isso é injusto pelos auspícios dos sumos sacerdotes da Grande Igreja dos Conceitos Puros.
Ontem entoava cantos ao nascente alaranjado, no alto minarete da minha existência. Hoje, ainda o sol não tinha despontado do horizonte e já me havia extinguido com a luz da estrela polar. Amanhã será outro dia e isso ir-me-ia chatear se eu existisse agora. Blá. Blá. Blá.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A Ilha do desespero

O espelho reflectir verdades; sulcos de dor, de experiência necessária ao crescimento, a dúvida sobre essa necessidade. Descair o pensamento para o ralo para depois enfrentar o cansaço do olhar com um ajeitar dos cabelos para trás, com a mão direita de firmeza. Cansaço, desespero, dor; a orla de uma verdade suprema que nunca vem; densa que nunca se avista; sonhada que nunca chega a aflorar os sentidos todos de uma vez. Não existem paisagens abertas que não sejam as águas furtadas do desencanto sobre as coisas. Por vezes, até as sombras estáticas da quase penumbra são demasiado coloridas, dinâmicas pela ideia de futuro adiado que jaz adormecida não se sabe bem onde.
O quarto deveria ser arrumado, mas o violoncelo insiste que se tem de parir a perfeição. Em lado nenhum se avista um ex-marido que nunca existiu; em lado algum o cheiro primaveril de um filho que nunca se quis ter. Só um vazio novo da orfandade a copular o vazio antigo sobre tudo e uma alma sustenida à espera do acorde que ainda se não inventou. Nos próximos dias, o refúgio da normalidade dos vencidos pela morte. O medo subsequente pela vida que se vai ter de enfrentar um dia...tem de ser um dia, como se a perda da bússola da inocência não fosse ainda tudo e agora se partisse o mastro que suportava todos os ventos.
A partir de agora ter de enfrentar a solidão nos olhares dos outros, desejar os silêncios no ruído da multidão, repudiar os silêncios no ruído dos móveis abandonados. Até para destruir memórias é preciso ter forças que se não adivinham ao futuro. A partir de agora o fundo do abismo para onde se saltou e o soçobrar da picareta insistente sobre o solo, como que procura outro fundo onde se exaurir da falta de coragem.
Oh! Esse naufrágio perpétuo nas tormentas viciantes da solidão, quando a linha entre a terra firme e o oceano foi transposta de livre vontade, quando a fronteira para o amor nos apelou à entrega total e depois nos ofereceu um deserto imenso de Medo salgado sobre a insalubridade do fim.
Aqui, no desespero aprisionado por horizontes vastos, a cor pode ser o verde intenso da vegetação onde os sonhos se adensam nas sombras tenebrosas, ou o azul profundo de uma outra gravidade, onde os peixes voam e a sobrevivência obriga a mexer os membros sem parar. Parece que nunca será o alaranjado do fogo do vulcão, que jaz adormecido, talvez morto como a mãe que se enterra no pó basáltico. Esta febre vertiginosa onde balanço a minha palidez; onde adenso a força bruta que contenho em promessas a mim própria; onde não respiro todas as notas que vou parindo.

terça-feira, 23 de abril de 2013

New Orleans

Deitarem o meu corpo a um rio de pouco caudal, onde se desfizesse nas horas e nos dias lentos de outras vidas; que antes dessa disposição anónima numa margem qualquer, se fizesse uma enorme parada de metais...New Orleans on my mind...e estivessem muitos...estivessem todos.
Os antepassados próximos, dos quais se receberam pequenas marcas das suas imortalidades efémeras; heranças distantes que nos caem em cima quando somos adultos e o tempo corre sem tempo para pensar. Os anónimos nomes de gente, de toda a gente de que se ouviram histórias, nem todas correctas em termos morais, nem todas com um profundo sentido de justiça ou de exemplo a colher mais tarde. No entanto, ervas daninhas que também dão algo de si no equilíbrio das coisas, no conjunto final do que sou agora, agora, agora...
As marés altas e baixas do que são amigos e os seus umbigos ou a sua entrega ao nosso swing-buraco-negro que tudo suga em sem redor; as múltiplas árvores que compõem a floresta onde nos abrigamos e também a alma de toda a floresta...uma única alma de toda a floresta que a todas as sombras se sobrepõem, que compõe todos os interstícios por onde a luz directa do sol beija a camada humosa ao longo do dia... que é mesmo essa camada humosa e cheia de vidas quentes...as nossas vidas...por vezes adormecidas, frias...
Oh fuck! A solidão beep-bop que ressalta da espessura da noite, quando as esplanadas se arrumam e o vento frio de verão, que existe por umas breves horas, nasce e se mostra. A pele de galinha que mostrarias até ao teu ombro nú quando te beijasse o pescoço e sentisse o meu bafo a álcool intenso a fazer ricochete. Quando essa cabeça, oca de entrega total por instinto, descaísse no cansaço físico sobre esse mesmo ombro e o teu sorriso me erguesse a alma toda num único instante ou um simples afago na face rugosa da barba crescida alentasse contra todos os infortúnios do passado.
Oh fuck! O corpo a desfazer-se pela primeira micro-fauna que se ergue nas margens, já os lenços brancos se acomodaram à muito junto ao pesar da morte, nos bolsos e os bocais foram limpos durante a última cerveja silenciosa da orquestra na esplanada. À noite, já sem olhos, o corpo vibrará ao som dos que teimam em recuperar algumas moedas dos transeuntes, ou dos que só vivem para a música e por isso ali estão. Os amigos sentados na comodidade dos que lhes estão próximos e ainda vivos e os outros amigos, os sós, os inquietos, a babarem lágrimas e sobriedade pelo meio das drogas a que se entregam nesses momentos de dor.
Os antepassados em fila, a entrelaçarem-se na minha energia que se dispersa nas árvores de uma extensa floresta. Aqueles com quem se cruzaria um olhar cabisbaixo, de arrependimento sobre as ridículas tramas em que descondicionamos o amor; os outros com quem se trocariam sorrisos e silêncios de quem tem tudo a dizer por toda a eternidade. Amar na eternidade, navegar nessa certeza, é a derradeira magia do ser e não são estas palavras que tentam encerrar tudo o que de belo se poderia dizer sobre isso.
Já o corpo se desfaz em pó; os ossos calcinados pelo desgaste natural e toda a eternidade do amor se reinventa ainda em todas as formas de arte. Que os metais se acoplem em todos os festejos de vida, ainda que cumprimento final de vida. Que os amigos não se predam em enredos absurdos ou que façam os filmes obtusos, que procuram reinventar de outras tragédias já percepcionadas. Que para os que insistem na amargura das coisas efémeras do ser se destine um céu monoteísta, monotónico, monótono em todos os planos, e que se juntem todos em nuvens e que chovam sobre as florestas, que bebem o húmus das entranhas quentes da terra e que, aí sim, se tornem em coisas válidas, face à teimosia do futuro.

domingo, 21 de abril de 2013

Tom, espera...

Não sei amar por entre as gotas de chuva, sem que cada uma delas que me toca , fria, na pele, me desperte os tormentos da distância, as angústias do dever a cumprir que obrigam a estar longe. Por vezes, a solidão deixa de ser medo quando é o tempo de espera por estar de novo ao teu lado; quando todas as montanhas existenciais se escalam aos saltos e todas as dúvidas são enclaves onde explodem fronteiras para que os continentes se unam, a preencher os abismos tenebrosos do futuro adiado. Mas, noutros momentos, como agora, o sonho atravessa pontes nuas pelo meio dos temporais e a lua surge repentina, em calmias extemporâneas, para rir sobre a tormenta que se avizinha.
A raiva sobre a falta de força para esbracejar oceanos rumo a ti;
o rancor do frio polar que se sobrevoa no aninhar profundo nos lençois;
o pavor sobre todos esses monstros desconhecidos que se podem inventar pelo meio das sombras.
O teu nome, sílabas de neblinas coloridas onde flutuo, sobre um mar tempestuoso onde todas as Moby Dick do meu poder me esquartejerão o desejo. É quando o ânimo se descai pelos ombros e não tenho o teu cheiro como o único bálsamo que me pode salvar de tudo o que não existe mas se sente. Ao atracar nos portos mortos encontro bares cheios de solidões, copos a fingirem as curvas do teu corpo na ponta dos meus dedos, histórias sempre iguais, como me soam as minhas
agora
agora
agora
aqui, no ancoradouro das almas frias que procuram a coragem contra as gotas de chuva.
Sou Martin Eden a ouvir comícios políticos de clandestinos – o lado certo – como quem procura o sono profundo da ausência de ânsia sobre as coisas do mundo, sabendo cada vez mais, a cada segundo, que a sua verdade jaz na placidez do fundo do mar.
O Amor é, de tudo, o que se cria mais facilmente; basta ter os pianos certos na cabeça, quando as folhas esvoaçam e o tempo finge ser Outono e os trompetes anunciam todas as coisas que ainda se não inventaram.
Que se lixe! Tem de ser! Abraçar os segundos como os meus beijos registam o mapa do teu corpo, como quem chega à alma dos outros a dançar tango consigo mesmo num sambódremo de estupfacção e os amigos balançam na corda bamba do esquecimento fácil sobre tudo o que é importante. Pois, a esperança vem sempre dos metais de uma big band, ou das palavras dos doidos, que têm todo o peso da história nos seus olhos, da sua fome simples por umas calorias que permitam sonhar mais e mais...
Tom, espera...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Gin

Ter uma garrafa de gin adiada no esconderijo das dores inóspitas, como quem testa o limite da pressão da panela ao lume. Vergar-me para olhar para ela,
não como quem a reverencía, mas por ser necessário, dado o local onde repousa inquieta.
Então, pensar – ou continuar a pensar – insistentemente sobre a ideia de Liberdadade, na catadupa de silêncios que mordem os lábios e se empurram pela garganta a custo. Pontualmente, soltar umas palavras isoladas; uns indecisos
Pois
e uns lacónicos
Vai-te foder
e o braço ergue-se a agarrar o recipiente translúcido, enquanto os dedos doutra mão lhe rodam a tampa; o desvendar da potencial verdade suprema, ou tão só permitir que o odor fresco do alívio aplaque os sentidos.
Tomar uma pose vertical de segurança e tomá-la sofregamente, com o ímpeto de quem tem sede de tudo.
O outro lado...

sábado, 16 de março de 2013

terça-feira, 9 de outubro de 2012

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

ANARKITEKTURA #2


Apresentação da edição ANARKITEKTURA #1 colectivo ANARKITEKTURA/ concerto do projecto ESTILHAÇOS/ DJ set de Cisco Loco

O colectivo ANARKITEKTURA irá lançar a sua primeira edição em livro, ANARKITEKTURA #1, no próximo dia 13 de Outubro, pelas 16h, no bar Pop Fresh, sito na Rua Alexandre Herculano, em Coimbra. São editados 11 escritores e uma artista plástica. O evento contará com apresentações dos autores, conjugando a componente poética com som e imagem. Seguir-se-à um concerto, pela primeira vez em Coimbra, do projecto ESTILHAÇOS de Adolfo Luxúria Canibal, às 22h00. As reservas deverão ser feitas no bar Pop Fresh.

Programa:

16:00 - Apresentação do volume ANARKITEKTURA #1

16:30 - ANARKITEKTURA

22:00 - Estilhaços de Adolfo Luxúria Canibal, António Rafael, Henrique Fernandes, Jorge Coelho

00:00 - DJ set de Cisco Loco

O colectivo ANARKITEKTURA foi criado em Coimbra, em Março de 2012, integrando uma série de escritores e artistas gráficos, que pretendiam divulgar os seus trabalhos, firmando a fuga ao convencionalismo do main stream editorial, bem como sublinhar a pertinência de novas formas poéticas e junção das mesmas à música e expressão gráfica/plástica.

Após um primeiro evento, realizado em Coimbra em Abril do presente ano, começaram a trabalhar num volume em que o seu manifesto de existência fosse expresso. Assim, nasce o volume ANARKITEKTURA #1 e o evento ANARKITEKTURA #2. O evento terá início pelas 16h horas, do dia 13 de Outubro. O evento contará com um concerto do projecto ESTILHAÇOS de Adolfo Luxúria Canibal, que se apresentará pela primeira vez em Coimbra, também no Pop Fresh, pelas 22h00. O evento ANARKITEKTURA # 2 tem entrada livre, sendo que o concerto terá entrada paga. A noite culminará com um Set do DJ Cisco Loco

O projecto ESTILHAÇOS, surgido em 2004, nasceu como um espectáculo de Spoken Word, em que Adolfo Luxúria Canibal lia alguns textos e poemas do seu livro homónimo acompanhado ao piano e outros teclados por António Rafael. Posteriormente, mantendo as mesmas características, passaria a contar com a participação de Henrique Fernandes (contrabaixo), formação que iria gravar o primeiro disco do projecto, de título homónimo, editado em 2006 pela Transporte de Animais Vivos, selo discográfico das Quasi Edições.

O colectivo foi renovando o seu reportório, acrescentando novos textos e poemas – mais uma vez retirados do livro “Estilhaços”, mas também alguns de génese mais recente – aos inicialmente interpretados. Em Novembro de 2010, e depois de Jorge Coelho (guitarra) se ter juntado ao grupo, foram convidados pela Fundação Cupertino de Miranda – Museu do Surrealismo para uma sessão de homenagem a Mário Cesariny. Essa intervenção daria azo a uma remodelação radical do espectáculo, que mudaria a designação para “Estilhaços de Cesariny” e, a par dos escritos de Adolfo Luxúria Canibal, passava a incluir poemas do poeta surrealista. Seria este formato que, já em 2011, constituiria a base para a digressão que se seguiu e que os quatro músicos iriam gravar para a edição de um novo CD, “Estilhaços e Cesariny”, editado pela Assírio & Alvim no final do ano juntamente com o livro homónimo.
Já em Abril de 2012 o colectivo edita o tema “Nevoeiro” na colectânea de bandas de Braga “À Sombra de Deus IV – Braga 2012”, a partir do texto e da música compostos por Adolfo Luxúria Canibal e António Rafael para o filme de videoarte “S/ Título (Мій Голос)” que Adolfo Luxúria Canibal e o artista plástico João Onofre tinham apresentado no ano anterior no 19.º Festival Internacional de Cinema – Curtas de Vila do Conde.

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Helena


És Helena de Troia, a desculpa fácil que os homens encontram para travarem todas as guerras; a aura incandescente que os condena ao perpétuo exorcismo das suas paixões. Pensas que serão os teus olhos que ofuscam a sua racionalidade, que os atraem, como se emanassem um canto mudo de sereia e toda tu fosses um penhasco, uma tragédia escondida, mas previsível. Aprendeste desde cedo a defender-te da facilidade com os guerreiros querem tomar a tua débil fortaleza e, penso eu agora, ainda bem, que existem algumas muralhas que deixem as civilizações preservadas da devastação bruta da facilidade; como se fosses o velho da montanha escondido na sabedoria da sua biblioteca e a tua existência fosse a promessa do paraíso para todos os que se encontram perdidos.
O timbre da tua voz, melódico como a rebentação ligeira do mar numa enseada solarenga, a ecoar melancolias sobre as areias da praia, desde a janela onde se cativam os teus temores. Serás a pena e o remorso que soçobraram das feridas não cauterizadas dos moribundos e a esperança e a força da renovação, que brota das fontes da cidade sitiada. És o canto cadenciado dos escravos que miram as estrelas, na congeminação da derradeira revolta e também és o sorriso dos inocentes que aprendem a crueldade do mundo na última história antes de adormecerem.
O teu corpo é divino, ainda que rodeado por uma alma sujeita aos caprichos dos mortais. O teu olhar emana sonhos que não vais conseguir ter em noites inquietas de insónia, submersa que estás nas realidades do destino que te forçam a aceitar. Navegas pelos espaços com movimentos doces e serenos, para disfarçar a turbulenta preocupação pelos destinos da humanidade que conheces; a pose de quem tem milhares de filhos e, no entanto, nenhuma prol a quem entregar o futuro.
Cada um escala as montanhas que se oferecem à sua vontade, pela dificuldade que tornará o cumprimento do objectivo mais grandioso. Todos sentem impulsos fortes, nem que seja o de não sentirem impulsos. Alguns se vergam perante o peso da carência abjecta, que a sociedade se omite de transformar em verdadeira devoção momentânea. Outros se revolvem na excrementícia imaginação para com a flagelação do Desejo.
A tua vontade um manifesto que não aflora para além do pensamento que, eventualmente, se pode intricar num sorriso esboçado. O teu deleite, um mar morno, estático e, mesmo quando a tormenta cinzenta se vislumbra no horizonte, parece que o sol te cobre e transforma toda a tragédia humana numainevitabilidade mais fácil.
O mar contra os rochedos, como toda a força que a ponta dos teus dedos concentra na umbreira da janela, perante a praia tingida de sangue; o grito mudo; a dor imensa de não ter um outro amanhã. Onde estás, nesse momento, há uma luz baça sobre a realidade; uma névoa a suspender-se do sonho; a cor grita a angústia como a sede de viver.
Duvidas dos deuses que te elevaram ao pedestal dos imortais. Nem sempre és lírica e aprendes a cada segundo a não te aprisionar na luta contra as distâncias, contra os afastamentos a que elas conduzem. No sentires da devoção, sublinhas o pulular de vida na paisagem seca, lembrando os regatos tímidos das montanhas e o brilho distante das rochas, que te transporta para lá de todos os espelhos que a tua imaginação consegue alcançar. Na distância do refúgio, não assumes a permanência da saudade dos tempos da paz morna, mas um desejo desenfreado de te consumires à exaustão no drama que te oferecem.
Surges na simplicidade dos momentos a que nada se exige; quando a turba assustada se dissolve num silêncio momentâneo e a refrega que se tem ainda de cumprir quase se esquece da tua existência; quando se chega ao final do dia ao conforto e à solidão de cada um com os seus fantasmas; quando ao lavar das feridas, a preparar o entre sono da vigilância, a massa encontra um alento na idealização do teu sorriso ténue. Se conhecessem o brilho dos teus olhos, todos eram Aquiles sem calcanhar. Se conhecessem a doçura da tua voz todos eram incapazes de matar por ti.
Viva o movimento perpétuo da luminosidade difusa dos espaços onde circulas! Bem hajam, esses olhos concretos onde uma aura irreal se concretiza em ruídos de dor! Avé à harmonia do caos, onde os ouvidos navegam, rumo à ortogonalidade das tuas palavras melódicas! Salve os encadeamentos da realidade, que esfaqueiam a carne das multidões com a lentidão sádica do medo!
Na camuflagem equídea a guerra ainda crepita. Trompas anunciam a paz depois do horror; a catarse da solidão das ruínas. A tua voz esbate-se dentro do silêncio inteiro que se sente perante a beleza sem conteúdo. Os guerreiros perdem-se nas areias, a revolver a inquietude que a Lua crescente mente com o seu brilho. A humanidade perde-se no mito. A beleza prostitui-se nos domínios da Arte. Os poetas ganharão todas as guerras.

sábado, 28 de abril de 2012

Sofia




Sinto falta da distância próxima do teu cheiro, nas tardes de ressaca cinematográfica, quando me davas abrigo; uma espécie de carinho ausente; uma promessa de afago nunca efectuado; as linhas do deserto onde a minha visão se infindava num horizonte quente...perdido...descrente de toda a possibilidade de um dia fingirmos que nos amávamos.

Sinto a tua falta dias inteiros; das madrugadas em que o silêncio oculta as multidões amorfas de autómatos, num limbo catatónico, na ausência de objectivos válidos para enfrentar os futuros, aos pôr-do sol quando todas as coisas se evidenciam para além de si próprias, no nosso íntimo que tudo tenta compreender. Sinto a tua falta em todas as frinchas de diálogos, que transportam o ar fresco da desconstrução frenética, na ausência da crítica, na abstenção voluntária sobre todas as catarses possíveis.

Penso em ti, na tua presença etérea, quando verdades supremas assumem ecos sublimes contra as janelas fechadas das ruas e as fachadas teimam numa regularidade arquitectónica de cadência monotónica. Desejo-te quando as ruínas sopram decadência e apenas regurgitam calçadas cansadas que se estendem sob os meu pés. Aspiro à tua companhia quando assomo às aguas furtadas da minha dor, da minha felicidade conquistada às aberturas que transpiram a luz morna do final do dia.

A solidão deste momento é a ruína do orgulho; o olhar atento no espelho onde se reflecte a cobardia enrugada de nunca ter tido força para te conquistar. Tu, a Praça-forte magrebina que marca o ínicio de todos os becos para os mundos seguintes, no deserto das minhas intensões. Os mundos seguintes ao alcance do sonho e dos vastos horizontes que escondem todos os labirintos que os enredos humanos tecem. Ah! O medo dos membros cativos da vontade de um só passo. O medo a rir-se no espelho durante a escovagem de dentes.

A ironia a caminhar lenta para o leito gigante onde rebolo o exorcismo dos fantasmas, guiada por uma sarcástica luz ténue de vela. O cetim preto a arranhar-me a vontade de ser ontem...ou de ser outro amanhã e o momentâneo engole-se em seco, enquanto o grito se obstipa nos olhos cabisbaixos sobre o caos que ainda não se engavetou.
As prateleiras aninham as vozes descompassadas dos contos mais lacónicos, das morais mais afiadas. Ouço-as todas ao mesmo tempo e escondo-me nos interstícios da desculpa de não entender o que não quero...tímido, absorto da maior importância que é amar-te. Cerro os olhos como quem procura aí o silêncio. Encontro os teus cabelos a enredarem-me as cruas verdades nos dedos, o brilho dos teus olhos a calar a poesia toda e o sabor dos teus lábios a envenenar tudo o que julgo ser certo.

terça-feira, 10 de abril de 2012

ANARKITECTURA #1


Apresentação do colectivo ANARKITEKTURA #1
som, texto, voz e imagem

Anarkitektura é um colectivo de pessoas que se uniu com o objectivo de desconstruir conceitos. Todos os seus elementos já o faziam antes, quer pela expressão escrita, quer através da expressão musical. E...ste grupo procura juntar as duas vertentes, reforçando as suas exposições com uma componente gráfica. A liberdade criativa dos seus elementos é absoluta. Os pontos que os unem são dúcteis, mas fortes, procurando atentar contra o comércio oficial da ARTE.
A par com as apresentações haverá venda de livros de Alexandre Valinho Gigas e do colectivo Côdeas, bem como a venda de e apresentação dos produtos Katia Teles - moda e design.
Apareçam e abram as portas da percepção.

Membros:
Carolina Drave
Johnny Gil
Ricardo LaVey
Sandra Guerreiro
Paulo Brito
Alexandre Valinho Gigas
Isabela Preto Junqueira
Katia Teles
Nica Thevnin
Rua Alexandre Herculano, 16, r/c, Coimbra, Portugal

terça-feira, 3 de abril de 2012

So blue...


Pelo meio do silêncio, que sucede à tua simpatia circunstancial, sinto raiva até ao aflorar de uma lágrima. Prendo-a na garganta enquanto me afogo em perguntas e respostas sem nexo, enquanto, lá fora, o mundo festeja a minha queda.
Le bon printemps...                                                                                                              
ou a imortalidade a que nos entregamos, que nos escraviza, e que torna a memória efémera...mas será ela tão importante assim?
e o tempo serem estilhaços de prazer, de entrega somática à existência...e a existência serem estilhaços de saudades do tempo que na memória se apagam lentamente, como a carne se dissolve em questões concretas, fáceis, tão inocentemente absurdas.
So blue... essa plástica melancolia de desejar pelo meio das distâncias e da impossibilidade de partilhar desejos. Voar sobre labirintos de água, terra, fogo e ar e perder-me nas tormentosas chamas da carne, na volatilidade firme da luxúria.
A lua a gotejar sorrisos em espiral, sobre tudo e todos, sobre nós próprios, os incautos amantes solitários, a vitimizar pelo poder das palavras; a tinta negra que fere, que arranha, que esventra a alma no limbo, onde os anjos se revoltam contra os deuses e por si próprios assumem o poder da criação, como os corpos que se enlaçariam em fluídos quentes e de odor forte. Dois corpos. Um corpo. Um grito e toda a revolta contida numa implosão energética de antimatéria; o buraco negro de todos os momentos futuros.
A coragem do último sorriso,  quando a ternura é amarrotada pelos desencontros e me sinto perdido na cidade e me embebedo de azul e sonho e sorrio e amo e corro e danço perdido em mim; quando a luz da manhã se esbate na realidade luminosa dos dias e só a solidão me abraça depois da festa que é viver.
Pintava-te! Primeiro desenhava palavras soltas, na cinestesia das curvas. Depois, numa plenitude de caos monocromático esborratava o desejo, com palavras soltas de um poema onde a ternura escorreria por cada recanto de um corpo em metamorfose.
Enfim, libertar um momento de especial sensibilidade; o improviso da dor; a animalidade da solidão, quando o corpo descobre a memória da alma que não encontra e nada fica tudo se apaga na raiva do tempo. Saudades dispersas pelas ruas onde o amor é o tempo suspenso, em espaço circular, estremecido, desfragmentado no gotejar adormecido da lua.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Manifesto Re-Factory



‘Everyday, something new.’

John Cale, sobre ‘The Factory’

Porque estamos fartos da crítica vazia do ‘não se faz nada neste país’.

Porque sentimos que se critica mas não há iniciativa, não há vontade, há inércia criativa.

Somos pela música como forma de expressão, como forma de intervenção, como forma de arte única e excepcional.

Somos pela música. Somos pela alma. Somos sentimento.

Queremos reinventar o espírito de uma já ida ‘Factory’: respirar uma subcultura, revolucionar os limites do politicamente correcto, viver fora da caixa, fazer a apologia da arte enquanto parte integrante, incontornável e inevitável da vida.

Somos muito mais do que um mero evento. Somos o pré-anúncio de um movimento. DO movimento.

Somos pelo rock, pela anarquia do som, pela música só pela música. Sem intuitos mercantilistas que subvertam tudo quanto a música realmente é – somos contra a pseudo-música.

Somos pela tradição do rock na qual crescemos, somos por Coimbra como embaixadora inabalável do rock português.

E somos pela manutenção e sedimentação da nossa existência subversiva.

Queremos mais, queremos escorraçar o marasmo do sedentarismo das almas, queremos incentivar, empurrar, exaltar a criação artística, queremos um boost cultural.

Queremos proporcionar um espaço que transcenda o físico, um espaço aberto à criação sem barreiras nem lugares-comuns, mostrar a arte que por aí se faz e não encontra voz, por não ter como gritá-lo ao mundo. Queremos ser o microfone. Queremos amplificadores no máximo.

Somos contra o mainstream e contra todos os pr[é]conceitos musicais.

Queremos EXPLODIR em notas. Queremos MAIS, sempre MAIS e MELHOR. Queremos todos os dias algo diferente.

Somos pela música. Somos pela arte. Somos por todos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A explosão


Cartaz do evento Re-Factory, a ter lugar em Coimbra próximo Sábado. Leitura d' A explosão.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Szimborska (02/07/1923-01/02/2012)


O dia nasceu chorando. Não sou eu que, triste, o vejo assim; não. O dia nasceu chorando todas as minhas mágoas e, por isso, prossegui incólume perante as nuvens carregadas, vindas de latitudes mais a Norte. Os passos largos e lentos, com que percorri as Avenidas, tinham atribuição melancólica pelo colocar de mãos nos bolsos laterais das calças. Destes, vazios, nada retirei nem nada acrescentei ao nada que os dominava.

Metaforicamente o pensamento seguiu o exemplo por todo o tempo de caminhada e as mãos acomodavam-se mais abaixo, como se afagassem essa inércia dolorosa.

Sim, havia dor.

Não. Subentendia-se a dor, ainda que ausente dos receptores neurológicos mais ínfimos.

 Sentir a Melancolia sem questões de maior, sem surpresa; não a pensar, dissecar, nem mesmo contra ela lutar. Vergar apenas ligeiramente a coluna perante a sua grandeza, como quem cumprimenta reverencialmente um pensamento puro que se aproxima em bruto.

São tempos perigosos, estes que percorremos. As pessoas esquecem-se de amar e o Amor perde força face a uma ideia de liberdade ressequida, completamente errada perante os conteúdos inerentes a tão poderoso estado de espírito; LIBERDADE.

O idealismo tornou-se um beco sem saída; húmido, escuro, esquecido nos pensamentos inerentes à urbanidade.

O saber científico e a tecnologia, compartimentados em formalismos, são como diques dispostos na costa, contra a força das marés, da dinâmica geográfica que, pretensiosamente, pensamos dominar.

O cérebro contrai-se deixando resíduos mortos como lixo acumulado em docas secas; portos onde, há muito tempo, ninguém atraca.

A aventura face ao desconhecido VENDE-SE ÀS POSTAS e em PACOTES devidamente homologados pelas autoridades mundiais. Chamam piratas e terroristas a esses livres de nós e presos a si, que percorrem espaços remotos e isolados lutando diariamente pela sua sobrevivência.

Já os nómadas apresentam metamorfoses desesperadas que adiam a sua inevitável extinção. Alguns grupos de activistas, que tentam impedir a tragédia, ganham asas de borboleta e a sua força sucumbe pela efemeridade utilitária de tais apêndices.

Ontem, a minha dor pedia tréguas ao mundo infecto de sangue, do seu cheiro forte, da sua cor marcada em contraste à paisagem queimada. O caos anunciava a criatividade.
Ela ali está, sentada na compenetração do seu acto auto-destrutivo. Antes do pano baixar colocará gotas a mais do veneno que fortalecerá o Absinto. Seguir-se-á o silêncio que o esvaziar da sala anuncia. Szimborska colocará a mão na garganta esboçando um sorriso. Eu apertá-la-ei buscando o limite entre o prazer e a catarse.

domingo, 13 de novembro de 2011

A ruína


Entro no meu prédio em ruínas sabendo que já se encontra armadilhado para a implosão. Sigo até ao seu centro físico, o coração morto da sua regularidade imutável, até à detonação. Desfaço-me no silêncio. A carne mergulhada em tinta preta.


Sento-me. Espero.

Alguém dá a ordem de disparo. Alguém a ouve e corre a abrigar-se. Alguém a ouve e suspende a pose de espera, dirigindo-se ao mecanismo. Alguém observa, ansioso, o enterrar do manípulo para dentro da caixa de onde sai um fio preto; segue o fio com o olhar, ao compasso de sucessivos estrondos; sussurros guturais do passado que colapsa.

Estou sentado, de olhos cerrados para dentro de mim. Ouço a minha respiração profunda; a inspiração do cheiro a ruína; a expiração da certeza de futuro. Ouço o ruído longínquo e persistente das realidades móveis e mutáveis da civilização. Num segundo, em apenas um segundo, ouço um silêncio cavernoso, absoluto, numa pausa de respiração que, sei-o agora, já fazia adivinhar os estrondos cadenciados que me rodeiam; os murmúrios individuais dos elementos. O betão que racha como um guincho do animal esfaqueado ao sacrifício. O estilhaçar dos vidros, como buracos que se abrem à última oportunidade de fuga, a resposta mais fácil.

Não me movo.

O tombar das placas em diferentes timbres, desde a clave de sol ao fim da partitura. As partículas ínfimas desses elementos a formarem uma aura de pó, de caos. Os aços basilares que se vergam ou que se quebram, como o último estertor da persistência paradigmática.

Silêncio.

Inspiro caos. Expiro convulsivamente as memórias estanques; a ausência de trabalho diário na fachada, das operações cosmético-pragmáticas; as paredes nuas de estuque ou qualquer decoração, mostrando a fragilidade da estrutura; as fitas que calafetavam as aberturas; as forras que forjavam o chão e o tecto; os papeis coloridos e padronizados que mascaravam os espaços.

Alguém dá a ordem para que se encharque o monte de escombros. Alguém a executa procurando refrescar-se do calor provocado pelas ondas de choque. Alguém desperta do espectáculo sublime da destruição e se volta para pequenos afazeres, procurando distrair o pensamento sobre a efemeridade de todas as coisas.

A aura do caos esbate-se pela força das águas. O pó assenta sobre o cheiro calcificado do fim. Um líquido esbranquiçado e espesso forma sulcos que o dirigem aos ralos para o interior da terra fértil.

Inspiro o cheiro intenso a pó molhado; as memórias de infância a conglomerarem-se em novas formas naturais. Expiro um vapor sulfúrico que limpa o resto de mim.

Estou limpo. Permaneço sentado. Pequenas gotas de água delineiam o meu corpo nu. O vento frio de noroeste concentra as células da minha nova derme.

Alguém ordena que se varram os escombros. Alguém finge outros afazeres, ainda submerso no pensamento sobre a efemeridade de todas as coisas. Um exército de máquinas e de homens, subservientes e bem oleados, executa a limpeza.

Resta um terreno aplanado de onde despontam vestígios de fundações ocultas; pilares cortados, com ferros dobrados, forçados à orografia regular; muros de pedra vã reforçados com betão, formando linhas horizontais regulares do que outrora foi verticalidade.

Ergo-me. Permaneço estático.

Em meu redor restam ainda vestígios materiais de felicidades efémeras; fragmentos de recipientes onde se servia o sangue e a carne aos condiscípulos; restos de objectos inúteis, através dos quais se marcava uma diferença social e se anulava a existência todos os dias.

Caminho para fora de mim.

Estou limpo.

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

We love 77


Numa época que os comentadores oficiais apelidam de “crise”, podemos assistir, nos mais diversos planos da existência, que não o meramente económico e político, alterações paradigmáticas significativas, na forma como Boaventura Sousa Santos as descreveu, já vai para mais de uma década, no seu Discurso sobre as ciências. Tem esse pensamento as premissas de que: 1º) todo conhecimento científico-natural é científico-social; 2º) todo conhecimento é local e total; 3º) todo conhecimento é autoconhecimento; 4º) todo conhecimento científico visa constituir-se em senso comum. Sardine e Tobleroni, na sua exposição We love 77, estão nos interstícios desse devir.

Numa primeira abordagem, na exposição patente no Círculo das Artes Plásticas de Coimbra, os autores apresentam diversas leituras da atitude punk, tendo por suporte as imagens iconográficas, consagradas pela história, de 77 bandas que se acoplam a este movimento. Contudo, a exposição não se prende a uma cinestesia gráfica da agressividade dos sons e das suas mensagens, tão necessários nos nossos dias. Para além dela, programam-se projecções de filmes e concertos.

Na totalidade do programa apresentado, à luz do que se manifestou na sua inauguração, a exposição We love 77, procura o ressuscitar da irreverência crítica, nas diversas linguagens criativas possíveis. Coimbra, parece acordar de um sono leve; leito onde os mesmos agentes lutam por fazer ouvir o seu grito, este que tão bem se ouve por estes dias.

A não perder. Programa em



http://welove77.wordpress.com/we-love-77-festival/

domingo, 4 de setembro de 2011

Duras

Duras


Uma estupidez, afinal, ter caído na conversa fácil de sugerir o restaurante Le Moulin de la Galette. Ter perfeita consciência que, face aos meus anfitriães, teria o poder de escolher qualquer um, até o pastishe mais ridículo do bairro de Montmartre. Daí poder até concordar com a possibilidade de o ter feito movido por qualquer desejo subconsciente de me manter ausente do grupo que inseria nesse momento. Ridículo por não ser essa a verdade, se pensar bem nisso; ridículo por saber que não me apetecia simplesmente sugerir que escolhessem por mim, dando continuação à mentira de que já conhecia Paris, lançada aquando das apresentações matinais.

- Uma cidade lindíssima, de todo o centro universal da cultura ocidental, ainda hoje. Qual perda de importância face a Berlim? Paris, será toujours Paris.

Mais uma destas e calar-me-ia para além do indispensável, a conferência que aqui me trouxera; A influência da visita de Jean Paul Sartre a Portugal no movimento universitário, no contexto pós-revolucionário de Abril, era o tema que apresentava. Estava escrito em francês com a ajuda de Céline, uma tradutora amiga de que me lembrei graças a ele. Pese embora o meu domínio da língua franca permitir lê-lo com correcção, não a dominava ao ponto de me aventurar sem rede nesses domínios. O assunto era fácil de apresentar, uma vez que propunha que não se fizera sentir grande influência nesse evento, para além da mediatização dos discursos efectuados. Foram ouvidos, mas a influência positiva da intelectualidade na sociedade dava trabalho, e aquilo não era o Chile. Claro que toda uma geração tinha lido Sartre e foi para ela importante obter autógrafos do grande mestre. Esse cepticismo tinha-me feito notar perante os que agora são meus anfitriães, colegas de repasto e ouvintes das minhas mentiras. Nem disso se trata, mas é quase o mesmo. Tinha conhecido Paris na pré-adolescência, na primeira viagem que efectuara para além dos sonhos que me alimentaram a infância. Um vizinho da aldeia vinha de camião para a Bélgica e eu vim com ele para me convencer que não tinha sido feito para estar fechado num vale, na pequena aldeia, numa vidinha de merda que me contrariava um impulso de conhecer o mundo inteiro desde que me lembro de sonhar. Nenhum futuro se cumpre exactamente como se sonha, mas o meu aproximou-se do sonho através da literatura; podia viajar dentro dela ao lê-la e pelo mundo ao divulgá-la. Penso sempre nisso quando caminho e olho o chão.

Marguerite aproxima-se de mim, divertida e comenta que se conheço de facto Paris, como posso escolher esse lugarzinho para turista ver. Ninguém o entende, e manifestam-no nas suas expressões fugazmente perplexas, subindo pela Rue Lepic. Afinal, come-se lá como em qualquer outro lugar. Suspiro e penso em como sair desse novelo de conversa em que me deixei enlear. Começo a ficar com os membros presos, os gestos cada vez mais contidos. Corro o risco de paralisar.

Entro seguindo dois dos investigadores que me servem de cicerones. Marguerite deixa-se ficar para trás descontraidamente. Quando lhe cedo o passo, no último instante de não ter mais possibilidade de o fazer, ela agarre-me o cotovelo, esboçando um sorriso invasivo. Penso, enquanto nos dirigíamos à mesa dessa forma unidos, que escolheu a sua vítima, que me irá ridicularizar pela minha escolha, por todas as minhas mentiras até então, sobretudo de não estar, no total de todas as visitas, mais que uma semana em Paris, a cidade que desconheço quase por completo. Mas não. Parece que o seu sorriso foi destapado por uma nuvem de desinteresse quando abro a porta do impressionismo para uma possível conversa. Ordena-me que me sente a seu lado. Eu sinto medo ao mesmo tempo que sinto o conforto do seu olhar simpático. Espero pela primeira investida, com os braços pousados no colo, inertes como a atenção que finjo prestar à conversa de outros dois convivas.

O seu olhar altivo também se distrai com as conversas que escolhem o seu lugar na mesa e se sentam. Durante uns breves minutos posso descansar, o tempo de um dos empregados de mesa trazer o primeiro de cinco Martini Rosso, que Marguerite toma com Gin. Esse, o tempo de um questionário doloroso sobre a minha vida em que não chego a explicar nada – como se ela soubesse já tudo – constantemente interrompido por uma nova pergunta. Ao quinto martini chegamos com a conversa ao amor e, após os dois lugares mais comuns que me ocorreu ter coragem de dizer, ela diz que sou uma criança e cala-se, absorta, afogada nos seus ébrios pensamentos.

Ao virar a cara ao pensamento de que não a deveria tê-la acompanhado nos cinco martinis, no meu caso sem Gin, encontro ao fundo da mesa uma mulher de perfil, numa pose esteticamente perfeita. Lembro-me que Klein lhes chamaria momentos de especial sensibilidade e este era-o definitivamente. Fiquei surpreso por não ter reparado nela ainda. Ando demasiado embrenhado nos meus pensamentos e esqueço-me cada vez mais do mundo no meu redor imediato. Na sua face, o nariz mostrava-se discreto como ela inteira, mas imponente como toda ela na sua presença de aparência calma. A mão repousada sobre a ementa, enquanto sorri da conversa do tipo de óculos ao lado. Dele lembro-me do congresso, da sua abordagem fenomenológica à geografia da obra de Shakespear. São todos uns tangas. Saio para a Rua depois de pedir o jantar para que fume um cigarro.



Sonhar com as luzes alaranjadas por entre arbustos. Adivinhar, antes dos prédios, uma linha suburbana, a insignificância da possibilidade do comboio passar. Adivinhar uma alteração de vontade na forma explosiva com que as cores, as sombras se apresentam. Olhar sem expressão o casal que passa, saindo do restaurante. Enquanto concebo voltar para dentro, à companhia dos meus convivas, procurar a lua por entre a neblina nocturna. Encontrá-la. Olhá-la durante breves segundos. Voltar para dentro e tudo ser mais fácil.

Sangue,

Os corpos esquartejados pelo chão, nas cadeiras, nas mesas tingidas de sangue.

Sangue,

Pedaços soltos de um todo morto.

Sangue…



Eu a olhar os meus pés sobre o passeio; ouvir as vozes lá dentro, o silêncio dentro de mim enquanto inspiro o ar fresco e húmido de Paris. A lua branca, mais uma vez, mais uns segundos, pelo meio da neblina. Voltar para dentro e tudo ser mais fácil.

Figuras pontilhadas a olharem uns para os outros sem nada dizer, pelo menos de importante. Olhares e silêncios que denunciam os possíveis desencontros e as impossíveis solidões de todos consigo próprios. Em torno, o mundo apresenta-se festivo e mesmo os olhares solitários das figuras algum brilho emanam; uma vaga esperança de que alguém declare que os ame, sem medos, mesmo sem pretensões face à realização desse amor.

Um casal de mãos dadas, voltados de costas um para o outro e as mãos a resvalarem no fracasso da sua relação. Ele de olhar perdido, fixo no chão, fixo na ausência de alguém em si mesmo ou em alguém real mas distante. Ela a olhar em volta, como quem procura o incerto, o desconhecido, talvez mesmo aquele que, ao longe, tenta observar disfarçadamente todos os seus movimentos. Ela, não o vê. Ele pousa os seus braços, sem força, em volta do corpo da sua acompanhante e o mundo frenético que os rodeia quase pára. As mãos dela resvalam no abismo de não encontrar, apesar de aparentemente as erguer para arranjar o cabelo. Ao longe, ele, o outro, percebe a melodia harmoniosa de tal gesto, em compasso com as folhas de carvalho que se entrechocam no sibilar do vento.

Ao seu lado, sentados numa mesa, frente-a-frente, dois casais golpeiam-se com jogos triviais de infidelidade. Um bêbado, que sobre eles se debruça, grita impropérios fúteis de quem não está bem consigo e, logo, com todo o mundo que o rodeia. Poderia ser um filósofo preso a um quarto de águas furtadas, a uma secretária cheia de folhas escritas, mas conhece demasiado bem a realidade para teorizar sem dor, sem que grite de quando em vez a pessoas reais.



Marguerite diz-me que sentiu a minha falta. No copo reservado à água, duas beatas a navegar na tormentosa constatação de ter sido absurdo sair para ir fumar. Ela sorri. Os convivas tossem, a fingir algum desconforto com as suas atitudes. Sinto-me então à vontade para manifestar o meu apreço pela sua obra. Faço-o de forma formal, por temer uma reacção inesperada de sua parte e de assim ser mais fácil inventar desculpas. Ela diz-me.

- Tens de ser o gato preto que vagueia pelas realidades e de inventar o teu mito. Rimbaud, por exemplo, morreu feliz, liquefeito no seu drama. Inventou a modernidade no mais fundo da sua gruta, sem medo. Fugiu à comuna de Paris porque aí a morte não o procurava, assim como a verdade o enfrentava de vergasta, empurrando-o ao degredo. Do amor em ruína fez-se meretriz; urdiu-se Rás do deserto da sua trama; questionou o silêncio sem vaidade e sucumbiu febril por ser seu O Segredo. De que serás tu capaz?

Eu não sou capaz de acreditar que estou a ter esta conversa com ela. Não consigo olhá-la nos olhos com a mesma sinceridade com que ela domina os meus. Depois, aquela falta de brilho, que se pode atribuir aos visionários, a eclipsar a minha procura por um registo informal, que há anos não revisito.

Peço um martini com gin e calo-me, absorto de toda a gente, exceptuando Marguerite. Ela acende um cigarro, como quem faz por não dar conta de acto tão absurdo. Calamo-nos ao longo de todo o jantar. Concentro-me na mulher morena do fundo da mesa, nas pausas dos talheres pausados. Ela, toda delicadeza, pega nos seus talheres e saboreia cada garfada que conduz aos seus lábios finos. O tangas do Shakespear continua a debitar ao longo do repasto. Ela, impávida, parece saborear sonhos distantes desse lugar, permitindo-se sorrir para todos os interlocutores que a rodeiam. Abandona o sorriso quando percebe que a observo ao longe. Fita-me por uma fracção de segundo, mas o seu desviar de olhar desconcerta-me e intimida-me mais do que se me enfrentasse o meu arrogante olhar atónito.

Por todo o resto do jantar Marguerite continua calada, absorta, mas com ar racionalmente ébrio que sempre lhe adivinhei. Ao voltar-se descaradamente para mim, fá-lo com um brilho opaco e distante de quem tudo entende com uma frieza distante, de quem se omite de criticar, pese embora não mascarar as realidades com potenciais fins felizes. Tanto que um silêncio pode comportar, como me pode perturbar o silêncio da morena distante, no jogo de cruzares de olhares que nada dizem, mas que, de forma crescente, me absorvem por isso mesmo.

A noite traz chuviscos, ao sairmos do restaurante. Resolvemos subir até ao Sacrée Coeur e Marguerite diz que quer estar acima dos mortais ao meu lado. Podemos falar um pouco sobre isso, talvez. Eu ouço-a, mas estou a sorrir para a morena que, mais uma vez, concerta o cabelo curto, escorrido, preto, perto da franja, afastando para trás da orelha a madeixa que lhe tocava languidamente o canto da boca. A especialista em Simone de Bouvoir, com o seu cabelo apanhado rigidamente atrás da cabeça redonda, opta por se assoar ruidosamente, como forma de protesto perante a sua pose. Desta feita, o tangas do Shakespear debruça-se sobre o paredão, calado e com ar derrotado. Fala o tangas do Ginsberg, que é gay, mas que a morena não sabe, fazendo-lhe dedicar-lhe toda a atenção para o resto da noite.

- Ainda não percebeste nada, afinal. – Diz Marguerite sem expressão.

- Vou perceber depois. Assim é melhor. – respondi.

Todas as luzes da cidade se concentram nos seus olhos cansados descrentes. Dá a impressão que se despede com uma pena contida, descrente de si própria. Eu, de forma fria, não lhe atribuo a devida importância; não lhe dou a verdadeira atenção que a sua alma gigante exige.

A noite está clara, fria, mas apetece-me despir e urrar sobre a urbe. As luzinhas laranja guiam os perdidos e as brancas, mais dispersas no profundo da noite, são as vidas exuberantes dos mortais, antes de se recolherem às suas camas confortáveis, sonharem e serem eles próprios por umas horas.

Marguerite suspira, quando as pessoas tomam forma de grupo que decide onde ir a seguir. Salto para fora do meu umbigo, o buraco negro que tenta sugar a morena, e pergunto-lhe se quer companhia para casa. Diz-me que a acompanhe à estação do metro, sem desculpas sobre incómodos hipócritas ou quaisquer outras considerações sobre a minha oferta. Gosto dessa forma lacónica de estar.

Na penumbra cinzenta da estação Barbès-Rochechouart, Marguerite fez-me uma carícia na cara e deu-me um beijo condescendente nos lábios ao partir.

- Corre rumo à tua tragédia, português. – disse-me. Sem medo. Corres o risco de viver muitas vezes feliz pelo meio da tua angústia dominante. Não me escrevas.

Subir então a calçada, todas as calçadas da cidade até chegar ao Templo. Pelo caminho tropeçar em pessoas que, inadvertidas do meu alheamento contra mim vão. Aí chegado, procurar um antro com música, onde não encontro os meus convivas de jantar nem a morena, e afogar o resto da alma em álcool. Ficar atordoado, tóxico e resvalar o olhar sobre a multidão que, neste momento, me dão pena pelas suas vidinhas insignificantes, quando a angústia maior nasce da minha não ser diferente. Cobrir-me lentamente de silêncio pelo resto da noite.

Perdido na vertiginosa queda de ignorar os que me rodeiam, a tua ausência é saudade; o corpo que balançava suavemente, ao ritmo da música. Um novo olhar; como uma nova faca atirada contra o meu corpo sensível a olhares, far-me-ia despertar. Um espaço, uma arquitectura vulgar, para que tenha um canto que tu não preenches com a tua forma sublime de ser discreta. Logo depois o ridículo a reter-me na tua imagem, quando não te ouço, quando não imagino sequer o que dirias perante a actualidade política, de acordo com a tua moralidade e, sobretudo, que história que história carregam todas as coisas que te tornaram mais humana e menos sublime. Da profundidade que transportas nem um som, nem um cheiro, que a mais simples ideia assim, enquadrada.

Não aqui,

Não agora.

Ou a ténue desilusão de me dispersar, na medida em que falarias de roupas, de marcas, de coisas palpáveis e concretas, perspectivas dogmáticas que te deram e aceitaste sem questionar.

Não aqui,

Não agora.

No dia em que o teu sorriso for mais que pose ou quando eu conseguir entender a tua pose como mais que um sorriso, um arranjar de cabelo; com qualquer um dos cenários idílicos que a tua beleza pura inspira.

Desejava carpir as minhas mágoas numa pista de dança, infecta de poças de cerveja, de beatas infectas de cerveja, num corpo em que o sexo não se impusesse, em que tudo pudesse acontecer. Ao invés, piso uma tábua de sobriedade, uma realidade arquitectónica regular qualquer que acabei de inventar. Inventar é tão fácil quando se manobra o passado sem remorsos. Remorsos de não me ter aproximado de ti e de dizer o maior impropério que me aprouvesse; tocar o teu cabelo com a ponta do nariz e sentir o teu cheiro, aspirar toda a tua alma e, daí, adivinhar tudo o que és, a coisa vasta que se expande no meu querer e me domina, me escraviza, ou uma coisa suave que se entranha sem que ninguém dê por isso.

O meu jazz não é bem este que ouço no topo de Paris, sobre o mundo de Paris que anoitece num sábado. As pessoas respiram calma e transpiram serenidade. O swing apresenta-se forte desde o início, mas como uma bomba prestes a explodir, com um compasso crescente. Sim, o Milestones cantado pelo Chet. O meu jazz desta hora, neste sítio, é esse. Não caio na lamechice do autor. As pessoas, de facto, apresentam-se como formigas perante os meus passos de gigante. Um dia esse edifício irá desabar. É o meu último resquício pessimista da noite que o diz.



Pela manhã, no caminho de regresso à minha realidade, na Place du Tértre, encontro-a de perfil, numa esplanada, a tomar o pequeno-almoço, uma mão a pousar gentilmente sobre a chávena de chá, enquanto sorri, doce, para o livro onde pousa a outra. Aproximo-me e pergunto-lhe se me posso sentar. Depois apago o meu pensamento, enquanto ela sorri e debita ideias que não ouço, ofuscado pelo brilho que distribui com os seus gestos suaves, embalado nessa sonoridade acústica com que fala, disperso na ofuscação do fundo que lhe atribui aura de gigante.

No regresso de cada um ao seu hotel descobrimos que estamos no mesmo, au Jardin du Luxembourg. Nas despedidas, pesa o constrangimento de nos termos de apresentar formalmente um ao outro, de termos de partilhar o mesmo táxi, a mesma vista sobre o Sena, que lentamente se destapa da neblina e desperta da penumbra. Felizmente o restaurante do hotel não encerra e podemos partilhar mais um pouco as ideias da vida que ambos somos, um ao outro.

Tudo o resto é silêncio pesado, o seu corpo firme que se ergue, enquanto me olha fixamente, na pose lânguida de matrona de Klimt; a força esmagadora da sua presença a quase impedir-me de me erguer do sofá; a sua mão, volátil, que se oferece discretamente a indicar-me a direcção do paraíso.



Chegar à Rue Lamarck, fazer o jantar lentamente e pensar, pensar seriamente em assuntos que se adiam, na forma irresponsável de querer viver breves momentos de felicidade e, portanto, ignorar por completo a realidade. A Realidade! O que ela importa, nestes dias em que a Paixão se reanima lentamente no corpo, em pequenas acções do quotidiano, do seu quotidiano? O que importa quando Marguerite se exauriu na imortalidade que construiu e Paris perdeu uma luz tão incandescente? Poderia dizer nada, mas seria injusto para comigo, com a ideia que se elevou no meu pensamento neste final do dia, não tenho sido honesto comigo, consequentemente com os outros; não tenho sido honesto na paixão que o meu corpo quer sentir e que eu, teoricamente, não deixo.

Deixar livremente reter-me no olhar silencioso que brilha sobre outros olhos; deixar que os dedos que se tocam, se entrelaçam, sejam efectivamente símbolo de afectividade; deixar que os laços se criem, para que se destruam com o passar do tempo. O tempo…que se adivinha.



segunda-feira, 25 de abril de 2011

A explosão...de Alexandre Valinho Gigas

Eia companheiros da grande viagem! Eia saudosos deuses do futuro! Eia Saudeuses!

Eu, que sou espuma do mar desde o dia em que nasci, declaro a minha explosão em todos os elementos inventados e por inventar.

Eu, espuma do mar desde o dia em que nasci, que logo integrei a multidão que gritava liberdade contra o paredão rochoso das ideias firmes, contra o forte que guardava o farol guia, e que contra ele me desfiz múltiplas vezes, cadenciado pela monotonia da vida, e que nunca o consegui derrubar, declaro a minha explosão.

Eu que no início chorava, adivinhando um porquê desse mau estar, pelo frio que me descia da cabeça para todo o corpo; eu que chorava pelo sangue que, já então, me entupia as narinas. Eu, um líquido, quase gasoso, que investia contra a solidez das ideias firmes, era aí fogo, nesses entrechoques de vontades primordiais, de todos os devires por porvir.

Era um grito desesperado de liberdade, um inocente a abater pelas batinas, pelos terrores melodiosos e soturnos das novenas. Eu, que dava vida às rodas das bruxas em tornos de uma fogueira, nas noites espessas e de vento sibilante e o meu coração batia forte e eu sentia-me vivo. Eu que desembrulhava aventuras pelo meio dos campos, nas matas cerradas de carvalhos negrais, onde nem uma víbora despontava. Eu a ter de confessar esses e outros pecados a uma mão pesada de moralidade, que fingia uma pancada suave na nuca. Eu a ter de pedir perdão por mim e por todos os outros que não conhecia e a culpar-me por mim e por todos os outros que não conhecia.

Eu, espuma do mar a espraiar-me na areia, uma e outra vez, em maré crescente, repousado na ideia gloriosa que os meus antepassados tinham conseguido desfazer aquelas outrora grandes pedras, em minúsculas centelhas de mineral. Eu a ver os outros, ao longe, a baterem contra o rochedo e eu a sentir um apelo, uma força, uma vontade maior que o meu corpo imerso em subserviência. Falarem-me, então, da espiritualidade, contarem-me histórias dos mesmos profetas, das mesmas verdades em que ninguém parecia e parece acreditar, para que me ensinassem a mentira e a hipocrisia, para que me ensinassem o caminho das trevas do dogma, que todos tinham tomado, num momento ou outro das suas vidas.

Eu, um líquido volátil, quase gasoso, que questionava a solidez das ideias firmes, era aí fogo, brasa a extinguir-se num sopro, quase uma cinza.

Eu, a quem ensinaram cantos singelos de liberdade e de outras conquistas das Luzes, para que nelas não pensasse muito. Eu que vi ditadores e cruzes a tombar das paredes e que me encontrei numa enorme Europa vasta, para além das serras que me tinham cortado os horizontes e a sede de futuro.

Eu que subi várias latitudes do destino ao acaso, pensando ser por ele guiado, quando era eu que trepava, eu que esfolava os joelhos e os punhos. E no cimentar da crítica, mumificaram-me o pensamento com capas negras, estupidificaram-me a vontade de ser livre com saloiadas inertes de transformação em mim e em tudo o que me rodeava.

Eu que cresci na dúvida metódica da ciência, para que desconstruísse sem dano, o meu entendimento racional e a minha mais correcta consciência de mim, da ideia de Deus inexistente, a procurar a minha verdade com método. Eu, espuma do mar desde o dia em que nasci, a aprender a pertencer ao todo que se atirava contra o paredão das ideias firmes. Eu, uma gota empurrada por milhares delas, kamikaze carregado de orgulho, a arma mais mortífera de todos os tempos.

E no cansaço desse orgulho narcísico, eu gota levada pelo vento por sobre a terra, por sobre os cenários e enredos onde que as pessoas se encenam e se enredam. Eu, uma centelha de isolamento a gritar por mais isolamentos, estilhaços de gente igual a mim.

Eu, Narciso do Egipto. Eu, Alma dos Bórgias a penar. Eu pequeno burguês mal-educado. Eu, isto…eu, aquilo. Eu, um monte de merda a fingir ser vida no que os outros me ensinaram, esquecendo ter o poder de inventar uma só por mim. Eu a encenar-me em enredos cinzentos, tristes; tragédias em que tudo se adivinhava num primeiro acto, a ter culpa por mim e por todo o resto do mundo.

Eu que voei pelos espaços até que se anulasse em mim a noção de tempo, ou que pelo menos fosse uma noção lenta de espaço, o suficiente para decompor o mundo inteiro na mais ínfima partícula, como eu era uma. Eu que cresci e me tornei nuvem; eu que me desfiz em múltiplas lágrimas e uma delas foi fértil, distribuiu vida pelos espaços e pelos tempos, daí para o futuro.

Eu, que tive a coragem de dar toda a minha vida pela vida, aqui me declaro vida. Eu, que tive a coragem de ouvir mentiras durante anos a fio e de responder, sempre com esforço, com um sorriso cândido-hipócrita, uma esbelta e elegante subserviência perante todos os conceitos, uma dogmática pausa de pose sobre deus, sobre a ciência, sobre toda e qualquer entidade etérea que se afirmasse sobre mim, declaro-me aqui humano.

Eu, humano dos que não são ilha, dos que são continente; humano dos que pertencem aos outros na exacta e proporcional medida com que esperam que lhe pertençam; humano na exacta e proporcional medida com que se sonha liberdade, com que se caminha os passos significativos que se têm de dar e se espera que com eles o mundo se altere de forma significativa.

Eu, agora, um feixe de estrondosa luminosidade que impede os normais de focarem a minha “pura” realidade. Eia, eu! Eia, os saudosos deuses! Eia, os saudeuses!

Eia, os que leram os clássicos e que os destruíram com um fogo interior, difícil de despedaçar a alma, mesmo em alta temperatura. Eia, os que descontraíram tudo o que os rodeava e se sentiram e sentem perdidos, quais personagens de Delacroix, seguindo uma mulher com um peito desnudo. Eia, os esmagados pelo poder da arte e da sua incontornável sapiência, da sua incontornável e crua verdade de entrega pura e sincera ao SER HUMANO, de entrega total ao serem HUMANOS.

Porque todos nós temos o peso da utopia de ser criança ainda, sempre; de acreditar que os sonhos se cumprem facilmente; de acreditar, pese embora as punhaladas quotidianas que temos de desafarreoar das costas todos os dias, que as pessoas são boas na sua generalidade, mas que não importa se são boas ou más, desde que sejam autênticas.

Porque todos nós vemos os lados negros dos objectos que nos rodeiam, como vemos os claros, e nos deixamos ofuscar ou obscurecer por eles. Porque todos nós somos tendencialmente depressivos e pessimistas porque tragamos a custo todas as farpas de realidade dos Normais, para que as benesses etéreas dos momentos de sensibilidade especial sejam assimiladas por inteiro por cada célula que compõe o nosso corpo pequenino. Porque nesses momentos de criação somos gigantes e nos vimos de felicidade, gritando o Belo com suaves murmúrios, atingindo orgasmos de liberdade enquanto crescemos, arranhando as costas do futuro com toda a força que a pose estática da implosão de conceitos nos confere.

Porque todos nós somos escorraçados violentamente da realidade dos Normais todos os dias, sem cansaço, por não vestirmos bem, por não nos pentearmos adequadamente, por não falarmos do quanto queremos ser alienados, em todas as discussões estéreis durante os cafezinhos, por não desejarmos apenas ser a pessoa perfeita que os outros nos mostram serem.

Porque todos nós pomos em prática, todos os dias, a liberdade que tanto apregoamos, ao ponto de sorrirmos para a besta que diz alarvidades à nossa frente; de lhe darmos toda a liberdade de as dizer. Todas as bestas, milhões e milhões de bestas que nos criticam, que nos procuram direccionar, que nos violam o espírito e o corpo por entre as grades e muros altos de conceitos que não questionam, conceitos onde nos procuram encerrar. BESTAS.

Bestas porque não pensam, não aceitam os nossos manifestos quotidianos de sublinhar a diferença. Bestas porque ao não compreenderem, porque ao não pensarem sobre o que a nossa alma lhes dá com custo do nosso sangue, padecem de inveja, agem de forma maquiavélica para nos anularem, para que tudo em seu redor seja paz, normalidade, concordância e absoluta coexistência com o que está firmado para o nosso presente e para todos os nossos futuros possíveis.

Porque quando não conseguem vergar-nos nos encadeiam nos rótulos; “és isto e és aquilo”; porque precisamos estar comprimidos, compartimentados, etiquetados, engavetados nos respectivos compartimentos de conforto das ideias dos outros sobre tudo o que os rodeia; porque precisamos de ser a marginalidade que os outros usam para se identificarem bem dentro dos Normais; porque precisamos de ser os críticos a que só se atende até à formulação da pergunta e não ao que segue ao ponto de interrogação e assim se firma que existe total liberdade, inteira democracia, global aceitação da nossa fervorosa vontade de exprimir o que sentimos.

Vêm então os chamamentos; os abraços, os puxões, os arrastões da rede de malha fina, com que nos empurram para a mesma falta de ar de que todos sofrem. Nós que ficamos roxos de asfixia, inundados pela insípida realidade dos dias que nos são dados e que não podemos moldar. Nós que somos livres quando sonhamos e executamos o nosso sonho, uns com os outros, com todos, com tudo, inundados de drogas que nos atenuam a dor. Nós que as usamos ilegais, para que não nos anulemos no não-pensamento químico oficial, para que a crítica não se esgote, mas se expanda pelas esferas dos universos desconhecidos.

Nós que nos desfragmentamos em todos os universos paralelos possíveis e que encontramos por fora de nós as caricaturas que todos somos. Nós que não deixamos de sentir, de ser emotivos, de ter sentimentos puros pelos outros e nos arrependemos sinceramente dos nossos erros, sabendo que vamos voltar a errar, sem que nunca aliviemos a pena, a culpa, a tristeza sincera sobre o Outro.

Nós que distribuímos, abraços, beijos, cumplicidades ternas entre quem se reconhece agredido, mas também por quem se reconhece um pequeno deus do futuro. Nós que criamos matéria de uma qualquer imaterial energia como o amor, como o sonho, como a utopia que construímos paulatinamente no Olimpo do nosso pensamento.

Eia nós, os saudeuses, que pelo que conhecemos de todas as vidas que não vamos ter tempo de viver, que nos subjaz o peso de ter de mudar o mundo que nos rodeia. Nós, os inúteis sonhadores que inventamos futuros concretos e os expressamos da forma que nos der para vomitar revolta, dor, amor, luxúria e todos os pecados devidamente catalogados em Trento.

Nós que permanentemente resvalamos pelas paredes húmidas do bunker onde nos encerram, numa angustiante sobrevivência sobre o que nos impõem. Escorregamos no trabalho a horas certas para engordar as carteiras de alguns. Derrapamos na asfixiante servidão de ter de pagar à banca conforto; de ter de pagar ao clero paz espiritual; de ter de pagar ao estado o direito à vida. Roçamos na absurda dependência de termos de ser o que os outros querem para sermos nós próprios de quando em vez.

Nós que em todas as noites de angústia em que não repousamos, não conseguimos repousar sobre nada, procuramos dar o salto para fora do bunker. Nós que em todas as manhãs procuramos uma outra saída lógica para os dias, saída que ninguém nos oferece em conversas de café soturno, em olhares vazios de transporte público, em cadenciados passos adormecidos pelas calçadas, rumo aos afazeres burocráticos que a todos prendem os movimentos puros.

Nós que acreditamos no voto e não votamos; nós que lemos as notícias e as não engolimos; nós que acreditamos na paz e nos apetece despedaçar os membros de quem a não cumpre.

Nós que tentamos criar coisas que a alma nos incita a vomitar. Nós que aprendemos a depender dessa regurgitação para que nos alimentemos. Nós que não temos como curar essa angústia, essa dor permanente, a não ser que aceitemos que nos vendam um pouco, só o suficiente para comprar a cura, o fármaco poderoso do orgulho. Esse químico somático que só nos irá conduzir a mais e mais produção de dor e angústia que os outros nos querem comprar.

Comprar a nós, os saudosos deuses do futuro; a nós, saudeuses; a mim, que me recuso a viver na subserviência de tudo a horas certas, de acordo com os desígnios da maioria vigente. Eu que enjeito a possibilidade de me expressar para o improfícuo deleite de quem demonstra a sua cultura em praça pública; que me nego a mim próprio todas as vezes que forem necessárias à crucificação dos Normais; eu que declino o meu direito de ser livre pelos desígnios dos outros; eu que indefiro toda e qualquer opinião que me classifique e me procure engavetar no mofo da marginalidade; eu que rejeito qualquer oferta sincera de querer comprar o que há de subversivo em mim

Eu, saudoso deus do futuro. Eu, saudeus, que aqui me expludo em todos os elementos inventados e por inventar, que aqui me impludo em todos os conceitos que ainda não destrui, declaro aqui a minha vida, a minha entrega ao SER HUMANO, À ARTE; a minha entrega total a todos os sonhos que ainda não tive e a todos os que neles se revirem, na marginalidade onde habito rumo à LIBERDADE.