quarta-feira, 30 de junho de 2010

Alentejo 2010


Cava, rapaz. Cava. Dá-lhe com a força que tens e a outra que procuras, para tentar chegar ao tesouro. Cava essa terra endurecida e estéril, que nada te dará para além de um punhado de memórias fragmentadas, compartimentadas cientificamente. De quando em vez faz uma pausa para repôr os níveis de água no corpo; não por muito tempo, mas o suficiente para olhares a enorme debulhadora que passa a ceifar o trigo, conduzida para o Sr. Francisco que te sorri e te acena. Pensa nas almas que cavavam e ceifavam estas terras, ainda tu eras criança, no seu esforço, nas suas vidas breves e cheias de nada. Reconforta-te nessas imagens da ironia histórica e não penses mais, não disseques as ideias que te podem fazer chegar a comparações anacrónicas, talvez...
Cava, besta. Cava. Dá tudo o que os teus músculos doridos podem dar, as tuas mãos calejadas, a tua alma sofrida. Dá tudo, para que pagues a tempo os impostos, os teus e da tua família que os não consegue pagar. Paga sem bufar, sem pensar sobretudo em todos os cabrões que passaram anos a esbanjar o que lhes davas sorridente, com o suor a escorrer pelo corpo e esse corpo a anunciar as primeiras mazelas dos dias que corriam depressa demais. Não penses, porque agora alguém quer por freio nisso. Acredita, menino. Acredita. Crê como a fé que tinhas e que perdeste no caminho, pelo meio das distracções da ciência; crê que agora os mesmos cabrões vão ser sérios e gastar bem o teu dinheiro, poupar como tu o poupas todos os dias. Se não quiseres crer, ainda te podes manifestar contra o mais e mais que te roubam, contra esses que tomam decisões por ti, o parvalhão que vota com a ideia que tem algo a dizer, que os outros te vão ouvir. Viva a liberdade à medida que ta vendem como sendo a tua, na medida em que tu escolhes. Viva a liberdade e não penses também que esses parvalhões que se indignam nas ruas da capital só estão contra que lhes vão aos seus bolsos. Quais questões de princípio; quais revoluções sangrentas contra esses que roubam o mesmo que seus pais roubavam, da mesma forma que lhes ensinaram durante séculos e séculos.
Cava, português. Cava. Sente esse orgulho desmesurado na tua cultura; na tua língua que se globaliza por ordem de um Presidente da República tabula rasa; nos donos das artes que maltratam os artistas que lhes não enchem os bolsos e que os sacralizam na morte para que rendam tudo o que neles investiram. Vai ao futebol e bebe cerveja nacional e grita vivas quando ganham e chama-lhes nomes quando perdem e considera que estás num país pequeno, que todos nós somos muitos pequeninos e que daí, de forma dogmática, tens de aceitar esse suor que te ensopa as roupas.
Cava, filho da puta. Cava. Sonha com o final do dia e com a possibilidade de ires beber umas cervejas ao tasco da aldeia. Tu feliz, sim, porque nada tens a ver com todos os outros que se encharcam de cerveja ao teu lado, com o mesmo olhar cansado, com a mesma revolta contida de quem compreende muito bem tudo o que lhes catequizam os jornais. Tu um ser iluminado que chega a casa e ainda tem algum tempo para um livro que te direccione os sonhos inquietos da noite. Sonhas as aventuras que lês, enquanto os outros ainda se afogam em cerveja sem pensar em mais nada. Sonhas que cortas as gargantas dos capitães oficiais dos barcos e que, numa qualquer revolução, te cortam a cabeça a ti, por seres diferente. Não sonhas com o resto que pensas quando acordas de madrugada alagado em suor. Vai cavar, parvalhão. Vai cavar, que outro dia nasceu e outros que dormem, estão à espera do teu esforço em prol do bem comum.