domingo, 13 de novembro de 2011

A ruína


Entro no meu prédio em ruínas sabendo que já se encontra armadilhado para a implosão. Sigo até ao seu centro físico, o coração morto da sua regularidade imutável, até à detonação. Desfaço-me no silêncio. A carne mergulhada em tinta preta.


Sento-me. Espero.

Alguém dá a ordem de disparo. Alguém a ouve e corre a abrigar-se. Alguém a ouve e suspende a pose de espera, dirigindo-se ao mecanismo. Alguém observa, ansioso, o enterrar do manípulo para dentro da caixa de onde sai um fio preto; segue o fio com o olhar, ao compasso de sucessivos estrondos; sussurros guturais do passado que colapsa.

Estou sentado, de olhos cerrados para dentro de mim. Ouço a minha respiração profunda; a inspiração do cheiro a ruína; a expiração da certeza de futuro. Ouço o ruído longínquo e persistente das realidades móveis e mutáveis da civilização. Num segundo, em apenas um segundo, ouço um silêncio cavernoso, absoluto, numa pausa de respiração que, sei-o agora, já fazia adivinhar os estrondos cadenciados que me rodeiam; os murmúrios individuais dos elementos. O betão que racha como um guincho do animal esfaqueado ao sacrifício. O estilhaçar dos vidros, como buracos que se abrem à última oportunidade de fuga, a resposta mais fácil.

Não me movo.

O tombar das placas em diferentes timbres, desde a clave de sol ao fim da partitura. As partículas ínfimas desses elementos a formarem uma aura de pó, de caos. Os aços basilares que se vergam ou que se quebram, como o último estertor da persistência paradigmática.

Silêncio.

Inspiro caos. Expiro convulsivamente as memórias estanques; a ausência de trabalho diário na fachada, das operações cosmético-pragmáticas; as paredes nuas de estuque ou qualquer decoração, mostrando a fragilidade da estrutura; as fitas que calafetavam as aberturas; as forras que forjavam o chão e o tecto; os papeis coloridos e padronizados que mascaravam os espaços.

Alguém dá a ordem para que se encharque o monte de escombros. Alguém a executa procurando refrescar-se do calor provocado pelas ondas de choque. Alguém desperta do espectáculo sublime da destruição e se volta para pequenos afazeres, procurando distrair o pensamento sobre a efemeridade de todas as coisas.

A aura do caos esbate-se pela força das águas. O pó assenta sobre o cheiro calcificado do fim. Um líquido esbranquiçado e espesso forma sulcos que o dirigem aos ralos para o interior da terra fértil.

Inspiro o cheiro intenso a pó molhado; as memórias de infância a conglomerarem-se em novas formas naturais. Expiro um vapor sulfúrico que limpa o resto de mim.

Estou limpo. Permaneço sentado. Pequenas gotas de água delineiam o meu corpo nu. O vento frio de noroeste concentra as células da minha nova derme.

Alguém ordena que se varram os escombros. Alguém finge outros afazeres, ainda submerso no pensamento sobre a efemeridade de todas as coisas. Um exército de máquinas e de homens, subservientes e bem oleados, executa a limpeza.

Resta um terreno aplanado de onde despontam vestígios de fundações ocultas; pilares cortados, com ferros dobrados, forçados à orografia regular; muros de pedra vã reforçados com betão, formando linhas horizontais regulares do que outrora foi verticalidade.

Ergo-me. Permaneço estático.

Em meu redor restam ainda vestígios materiais de felicidades efémeras; fragmentos de recipientes onde se servia o sangue e a carne aos condiscípulos; restos de objectos inúteis, através dos quais se marcava uma diferença social e se anulava a existência todos os dias.

Caminho para fora de mim.

Estou limpo.

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