segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

O Corgo



Sair do corgo, que serpenteia lentamente pelo planalto, como muita dificuldade. Nas suas margens o gelo acumula-se em cascatas Güell que me cortam os tecidos enregelados das mãos e dos braços, conferindo-me uma dor aguda que me trespassa o corpo todo – o seu sentido de ser, pelo menos – pese embora o torpor do frio a que o corpo se entrega, numa morna hipotermia.

Subida a margem, ao limpar as feridas, no raspar das gotículas de gelo que se colam à derme, achar-me de repente numa sala cheia de gente. As pessoas submersas em conversas várias. Tento prestar-lhes atenção, mas os objectos gritam mais alto a sua explosão fenomenológica, chamando-me, prendendo-me, envolvendo-me numa tristeza, mais de que uma mera apatia, até então desconhecida.

O Amor, um conceito, um mero conceito, quando o caminho a que conduz é um beco escuro e húmido.

Beckett na esquina mais próxima à minha espera; aliás, em todo o lado, sempre presente na profundidade da noite, como Duras me empurra ao Abismo da Sobriedade Alcoólica do lazer, do pequeno e monótono lazer do fim de semana.

Eu, portanto, só, muito só, como nas palavras gigantes de Coleridge, de Rilke. Aqui, deus não existe e o que existe nem procuro nem quero perceber.

Ficar-me só pelo travo amargo da long drink;só por uma saudade tremenda de nada; só uma saudade suspensa sobre o futuro; só eu e a melancolia absurda de quem desconstrói ou desconstruiu demais até aqui, o ponto de partida para lado nenhum.

E, do inesperado, a salvação frenética do teatro, a urina que se assoma à expressão somática do medo.

Na minha cabeça, então, todos os quadros que Pollock não quis pintar, rumo ao sangue das jovens que o acompanharam no seu destino moribundo. Pontos finais que saltam fora da linha

Desterros desérticos do pensamento tabula rasa

E, baça, toda a minha alma, enquanto a luxúria me olha de esguelha, me pede toda a minha carne. A paixão ser voluntariamente preterida à dor e o teu olhar, submerso nessa ideia absurda de altivez, ser nada, o nada que, afinal, sempre procurei em ti.

Encontrei. Encontrei.