segunda-feira, 25 de abril de 2011

A explosão...de Alexandre Valinho Gigas

Eia companheiros da grande viagem! Eia saudosos deuses do futuro! Eia Saudeuses!

Eu, que sou espuma do mar desde o dia em que nasci, declaro a minha explosão em todos os elementos inventados e por inventar.

Eu, espuma do mar desde o dia em que nasci, que logo integrei a multidão que gritava liberdade contra o paredão rochoso das ideias firmes, contra o forte que guardava o farol guia, e que contra ele me desfiz múltiplas vezes, cadenciado pela monotonia da vida, e que nunca o consegui derrubar, declaro a minha explosão.

Eu que no início chorava, adivinhando um porquê desse mau estar, pelo frio que me descia da cabeça para todo o corpo; eu que chorava pelo sangue que, já então, me entupia as narinas. Eu, um líquido, quase gasoso, que investia contra a solidez das ideias firmes, era aí fogo, nesses entrechoques de vontades primordiais, de todos os devires por porvir.

Era um grito desesperado de liberdade, um inocente a abater pelas batinas, pelos terrores melodiosos e soturnos das novenas. Eu, que dava vida às rodas das bruxas em tornos de uma fogueira, nas noites espessas e de vento sibilante e o meu coração batia forte e eu sentia-me vivo. Eu que desembrulhava aventuras pelo meio dos campos, nas matas cerradas de carvalhos negrais, onde nem uma víbora despontava. Eu a ter de confessar esses e outros pecados a uma mão pesada de moralidade, que fingia uma pancada suave na nuca. Eu a ter de pedir perdão por mim e por todos os outros que não conhecia e a culpar-me por mim e por todos os outros que não conhecia.

Eu, espuma do mar a espraiar-me na areia, uma e outra vez, em maré crescente, repousado na ideia gloriosa que os meus antepassados tinham conseguido desfazer aquelas outrora grandes pedras, em minúsculas centelhas de mineral. Eu a ver os outros, ao longe, a baterem contra o rochedo e eu a sentir um apelo, uma força, uma vontade maior que o meu corpo imerso em subserviência. Falarem-me, então, da espiritualidade, contarem-me histórias dos mesmos profetas, das mesmas verdades em que ninguém parecia e parece acreditar, para que me ensinassem a mentira e a hipocrisia, para que me ensinassem o caminho das trevas do dogma, que todos tinham tomado, num momento ou outro das suas vidas.

Eu, um líquido volátil, quase gasoso, que questionava a solidez das ideias firmes, era aí fogo, brasa a extinguir-se num sopro, quase uma cinza.

Eu, a quem ensinaram cantos singelos de liberdade e de outras conquistas das Luzes, para que nelas não pensasse muito. Eu que vi ditadores e cruzes a tombar das paredes e que me encontrei numa enorme Europa vasta, para além das serras que me tinham cortado os horizontes e a sede de futuro.

Eu que subi várias latitudes do destino ao acaso, pensando ser por ele guiado, quando era eu que trepava, eu que esfolava os joelhos e os punhos. E no cimentar da crítica, mumificaram-me o pensamento com capas negras, estupidificaram-me a vontade de ser livre com saloiadas inertes de transformação em mim e em tudo o que me rodeava.

Eu que cresci na dúvida metódica da ciência, para que desconstruísse sem dano, o meu entendimento racional e a minha mais correcta consciência de mim, da ideia de Deus inexistente, a procurar a minha verdade com método. Eu, espuma do mar desde o dia em que nasci, a aprender a pertencer ao todo que se atirava contra o paredão das ideias firmes. Eu, uma gota empurrada por milhares delas, kamikaze carregado de orgulho, a arma mais mortífera de todos os tempos.

E no cansaço desse orgulho narcísico, eu gota levada pelo vento por sobre a terra, por sobre os cenários e enredos onde que as pessoas se encenam e se enredam. Eu, uma centelha de isolamento a gritar por mais isolamentos, estilhaços de gente igual a mim.

Eu, Narciso do Egipto. Eu, Alma dos Bórgias a penar. Eu pequeno burguês mal-educado. Eu, isto…eu, aquilo. Eu, um monte de merda a fingir ser vida no que os outros me ensinaram, esquecendo ter o poder de inventar uma só por mim. Eu a encenar-me em enredos cinzentos, tristes; tragédias em que tudo se adivinhava num primeiro acto, a ter culpa por mim e por todo o resto do mundo.

Eu que voei pelos espaços até que se anulasse em mim a noção de tempo, ou que pelo menos fosse uma noção lenta de espaço, o suficiente para decompor o mundo inteiro na mais ínfima partícula, como eu era uma. Eu que cresci e me tornei nuvem; eu que me desfiz em múltiplas lágrimas e uma delas foi fértil, distribuiu vida pelos espaços e pelos tempos, daí para o futuro.

Eu, que tive a coragem de dar toda a minha vida pela vida, aqui me declaro vida. Eu, que tive a coragem de ouvir mentiras durante anos a fio e de responder, sempre com esforço, com um sorriso cândido-hipócrita, uma esbelta e elegante subserviência perante todos os conceitos, uma dogmática pausa de pose sobre deus, sobre a ciência, sobre toda e qualquer entidade etérea que se afirmasse sobre mim, declaro-me aqui humano.

Eu, humano dos que não são ilha, dos que são continente; humano dos que pertencem aos outros na exacta e proporcional medida com que esperam que lhe pertençam; humano na exacta e proporcional medida com que se sonha liberdade, com que se caminha os passos significativos que se têm de dar e se espera que com eles o mundo se altere de forma significativa.

Eu, agora, um feixe de estrondosa luminosidade que impede os normais de focarem a minha “pura” realidade. Eia, eu! Eia, os saudosos deuses! Eia, os saudeuses!

Eia, os que leram os clássicos e que os destruíram com um fogo interior, difícil de despedaçar a alma, mesmo em alta temperatura. Eia, os que descontraíram tudo o que os rodeava e se sentiram e sentem perdidos, quais personagens de Delacroix, seguindo uma mulher com um peito desnudo. Eia, os esmagados pelo poder da arte e da sua incontornável sapiência, da sua incontornável e crua verdade de entrega pura e sincera ao SER HUMANO, de entrega total ao serem HUMANOS.

Porque todos nós temos o peso da utopia de ser criança ainda, sempre; de acreditar que os sonhos se cumprem facilmente; de acreditar, pese embora as punhaladas quotidianas que temos de desafarreoar das costas todos os dias, que as pessoas são boas na sua generalidade, mas que não importa se são boas ou más, desde que sejam autênticas.

Porque todos nós vemos os lados negros dos objectos que nos rodeiam, como vemos os claros, e nos deixamos ofuscar ou obscurecer por eles. Porque todos nós somos tendencialmente depressivos e pessimistas porque tragamos a custo todas as farpas de realidade dos Normais, para que as benesses etéreas dos momentos de sensibilidade especial sejam assimiladas por inteiro por cada célula que compõe o nosso corpo pequenino. Porque nesses momentos de criação somos gigantes e nos vimos de felicidade, gritando o Belo com suaves murmúrios, atingindo orgasmos de liberdade enquanto crescemos, arranhando as costas do futuro com toda a força que a pose estática da implosão de conceitos nos confere.

Porque todos nós somos escorraçados violentamente da realidade dos Normais todos os dias, sem cansaço, por não vestirmos bem, por não nos pentearmos adequadamente, por não falarmos do quanto queremos ser alienados, em todas as discussões estéreis durante os cafezinhos, por não desejarmos apenas ser a pessoa perfeita que os outros nos mostram serem.

Porque todos nós pomos em prática, todos os dias, a liberdade que tanto apregoamos, ao ponto de sorrirmos para a besta que diz alarvidades à nossa frente; de lhe darmos toda a liberdade de as dizer. Todas as bestas, milhões e milhões de bestas que nos criticam, que nos procuram direccionar, que nos violam o espírito e o corpo por entre as grades e muros altos de conceitos que não questionam, conceitos onde nos procuram encerrar. BESTAS.

Bestas porque não pensam, não aceitam os nossos manifestos quotidianos de sublinhar a diferença. Bestas porque ao não compreenderem, porque ao não pensarem sobre o que a nossa alma lhes dá com custo do nosso sangue, padecem de inveja, agem de forma maquiavélica para nos anularem, para que tudo em seu redor seja paz, normalidade, concordância e absoluta coexistência com o que está firmado para o nosso presente e para todos os nossos futuros possíveis.

Porque quando não conseguem vergar-nos nos encadeiam nos rótulos; “és isto e és aquilo”; porque precisamos estar comprimidos, compartimentados, etiquetados, engavetados nos respectivos compartimentos de conforto das ideias dos outros sobre tudo o que os rodeia; porque precisamos de ser a marginalidade que os outros usam para se identificarem bem dentro dos Normais; porque precisamos de ser os críticos a que só se atende até à formulação da pergunta e não ao que segue ao ponto de interrogação e assim se firma que existe total liberdade, inteira democracia, global aceitação da nossa fervorosa vontade de exprimir o que sentimos.

Vêm então os chamamentos; os abraços, os puxões, os arrastões da rede de malha fina, com que nos empurram para a mesma falta de ar de que todos sofrem. Nós que ficamos roxos de asfixia, inundados pela insípida realidade dos dias que nos são dados e que não podemos moldar. Nós que somos livres quando sonhamos e executamos o nosso sonho, uns com os outros, com todos, com tudo, inundados de drogas que nos atenuam a dor. Nós que as usamos ilegais, para que não nos anulemos no não-pensamento químico oficial, para que a crítica não se esgote, mas se expanda pelas esferas dos universos desconhecidos.

Nós que nos desfragmentamos em todos os universos paralelos possíveis e que encontramos por fora de nós as caricaturas que todos somos. Nós que não deixamos de sentir, de ser emotivos, de ter sentimentos puros pelos outros e nos arrependemos sinceramente dos nossos erros, sabendo que vamos voltar a errar, sem que nunca aliviemos a pena, a culpa, a tristeza sincera sobre o Outro.

Nós que distribuímos, abraços, beijos, cumplicidades ternas entre quem se reconhece agredido, mas também por quem se reconhece um pequeno deus do futuro. Nós que criamos matéria de uma qualquer imaterial energia como o amor, como o sonho, como a utopia que construímos paulatinamente no Olimpo do nosso pensamento.

Eia nós, os saudeuses, que pelo que conhecemos de todas as vidas que não vamos ter tempo de viver, que nos subjaz o peso de ter de mudar o mundo que nos rodeia. Nós, os inúteis sonhadores que inventamos futuros concretos e os expressamos da forma que nos der para vomitar revolta, dor, amor, luxúria e todos os pecados devidamente catalogados em Trento.

Nós que permanentemente resvalamos pelas paredes húmidas do bunker onde nos encerram, numa angustiante sobrevivência sobre o que nos impõem. Escorregamos no trabalho a horas certas para engordar as carteiras de alguns. Derrapamos na asfixiante servidão de ter de pagar à banca conforto; de ter de pagar ao clero paz espiritual; de ter de pagar ao estado o direito à vida. Roçamos na absurda dependência de termos de ser o que os outros querem para sermos nós próprios de quando em vez.

Nós que em todas as noites de angústia em que não repousamos, não conseguimos repousar sobre nada, procuramos dar o salto para fora do bunker. Nós que em todas as manhãs procuramos uma outra saída lógica para os dias, saída que ninguém nos oferece em conversas de café soturno, em olhares vazios de transporte público, em cadenciados passos adormecidos pelas calçadas, rumo aos afazeres burocráticos que a todos prendem os movimentos puros.

Nós que acreditamos no voto e não votamos; nós que lemos as notícias e as não engolimos; nós que acreditamos na paz e nos apetece despedaçar os membros de quem a não cumpre.

Nós que tentamos criar coisas que a alma nos incita a vomitar. Nós que aprendemos a depender dessa regurgitação para que nos alimentemos. Nós que não temos como curar essa angústia, essa dor permanente, a não ser que aceitemos que nos vendam um pouco, só o suficiente para comprar a cura, o fármaco poderoso do orgulho. Esse químico somático que só nos irá conduzir a mais e mais produção de dor e angústia que os outros nos querem comprar.

Comprar a nós, os saudosos deuses do futuro; a nós, saudeuses; a mim, que me recuso a viver na subserviência de tudo a horas certas, de acordo com os desígnios da maioria vigente. Eu que enjeito a possibilidade de me expressar para o improfícuo deleite de quem demonstra a sua cultura em praça pública; que me nego a mim próprio todas as vezes que forem necessárias à crucificação dos Normais; eu que declino o meu direito de ser livre pelos desígnios dos outros; eu que indefiro toda e qualquer opinião que me classifique e me procure engavetar no mofo da marginalidade; eu que rejeito qualquer oferta sincera de querer comprar o que há de subversivo em mim

Eu, saudoso deus do futuro. Eu, saudeus, que aqui me expludo em todos os elementos inventados e por inventar, que aqui me impludo em todos os conceitos que ainda não destrui, declaro aqui a minha vida, a minha entrega ao SER HUMANO, À ARTE; a minha entrega total a todos os sonhos que ainda não tive e a todos os que neles se revirem, na marginalidade onde habito rumo à LIBERDADE.