domingo, 4 de setembro de 2011

Duras

Duras


Uma estupidez, afinal, ter caído na conversa fácil de sugerir o restaurante Le Moulin de la Galette. Ter perfeita consciência que, face aos meus anfitriães, teria o poder de escolher qualquer um, até o pastishe mais ridículo do bairro de Montmartre. Daí poder até concordar com a possibilidade de o ter feito movido por qualquer desejo subconsciente de me manter ausente do grupo que inseria nesse momento. Ridículo por não ser essa a verdade, se pensar bem nisso; ridículo por saber que não me apetecia simplesmente sugerir que escolhessem por mim, dando continuação à mentira de que já conhecia Paris, lançada aquando das apresentações matinais.

- Uma cidade lindíssima, de todo o centro universal da cultura ocidental, ainda hoje. Qual perda de importância face a Berlim? Paris, será toujours Paris.

Mais uma destas e calar-me-ia para além do indispensável, a conferência que aqui me trouxera; A influência da visita de Jean Paul Sartre a Portugal no movimento universitário, no contexto pós-revolucionário de Abril, era o tema que apresentava. Estava escrito em francês com a ajuda de Céline, uma tradutora amiga de que me lembrei graças a ele. Pese embora o meu domínio da língua franca permitir lê-lo com correcção, não a dominava ao ponto de me aventurar sem rede nesses domínios. O assunto era fácil de apresentar, uma vez que propunha que não se fizera sentir grande influência nesse evento, para além da mediatização dos discursos efectuados. Foram ouvidos, mas a influência positiva da intelectualidade na sociedade dava trabalho, e aquilo não era o Chile. Claro que toda uma geração tinha lido Sartre e foi para ela importante obter autógrafos do grande mestre. Esse cepticismo tinha-me feito notar perante os que agora são meus anfitriães, colegas de repasto e ouvintes das minhas mentiras. Nem disso se trata, mas é quase o mesmo. Tinha conhecido Paris na pré-adolescência, na primeira viagem que efectuara para além dos sonhos que me alimentaram a infância. Um vizinho da aldeia vinha de camião para a Bélgica e eu vim com ele para me convencer que não tinha sido feito para estar fechado num vale, na pequena aldeia, numa vidinha de merda que me contrariava um impulso de conhecer o mundo inteiro desde que me lembro de sonhar. Nenhum futuro se cumpre exactamente como se sonha, mas o meu aproximou-se do sonho através da literatura; podia viajar dentro dela ao lê-la e pelo mundo ao divulgá-la. Penso sempre nisso quando caminho e olho o chão.

Marguerite aproxima-se de mim, divertida e comenta que se conheço de facto Paris, como posso escolher esse lugarzinho para turista ver. Ninguém o entende, e manifestam-no nas suas expressões fugazmente perplexas, subindo pela Rue Lepic. Afinal, come-se lá como em qualquer outro lugar. Suspiro e penso em como sair desse novelo de conversa em que me deixei enlear. Começo a ficar com os membros presos, os gestos cada vez mais contidos. Corro o risco de paralisar.

Entro seguindo dois dos investigadores que me servem de cicerones. Marguerite deixa-se ficar para trás descontraidamente. Quando lhe cedo o passo, no último instante de não ter mais possibilidade de o fazer, ela agarre-me o cotovelo, esboçando um sorriso invasivo. Penso, enquanto nos dirigíamos à mesa dessa forma unidos, que escolheu a sua vítima, que me irá ridicularizar pela minha escolha, por todas as minhas mentiras até então, sobretudo de não estar, no total de todas as visitas, mais que uma semana em Paris, a cidade que desconheço quase por completo. Mas não. Parece que o seu sorriso foi destapado por uma nuvem de desinteresse quando abro a porta do impressionismo para uma possível conversa. Ordena-me que me sente a seu lado. Eu sinto medo ao mesmo tempo que sinto o conforto do seu olhar simpático. Espero pela primeira investida, com os braços pousados no colo, inertes como a atenção que finjo prestar à conversa de outros dois convivas.

O seu olhar altivo também se distrai com as conversas que escolhem o seu lugar na mesa e se sentam. Durante uns breves minutos posso descansar, o tempo de um dos empregados de mesa trazer o primeiro de cinco Martini Rosso, que Marguerite toma com Gin. Esse, o tempo de um questionário doloroso sobre a minha vida em que não chego a explicar nada – como se ela soubesse já tudo – constantemente interrompido por uma nova pergunta. Ao quinto martini chegamos com a conversa ao amor e, após os dois lugares mais comuns que me ocorreu ter coragem de dizer, ela diz que sou uma criança e cala-se, absorta, afogada nos seus ébrios pensamentos.

Ao virar a cara ao pensamento de que não a deveria tê-la acompanhado nos cinco martinis, no meu caso sem Gin, encontro ao fundo da mesa uma mulher de perfil, numa pose esteticamente perfeita. Lembro-me que Klein lhes chamaria momentos de especial sensibilidade e este era-o definitivamente. Fiquei surpreso por não ter reparado nela ainda. Ando demasiado embrenhado nos meus pensamentos e esqueço-me cada vez mais do mundo no meu redor imediato. Na sua face, o nariz mostrava-se discreto como ela inteira, mas imponente como toda ela na sua presença de aparência calma. A mão repousada sobre a ementa, enquanto sorri da conversa do tipo de óculos ao lado. Dele lembro-me do congresso, da sua abordagem fenomenológica à geografia da obra de Shakespear. São todos uns tangas. Saio para a Rua depois de pedir o jantar para que fume um cigarro.



Sonhar com as luzes alaranjadas por entre arbustos. Adivinhar, antes dos prédios, uma linha suburbana, a insignificância da possibilidade do comboio passar. Adivinhar uma alteração de vontade na forma explosiva com que as cores, as sombras se apresentam. Olhar sem expressão o casal que passa, saindo do restaurante. Enquanto concebo voltar para dentro, à companhia dos meus convivas, procurar a lua por entre a neblina nocturna. Encontrá-la. Olhá-la durante breves segundos. Voltar para dentro e tudo ser mais fácil.

Sangue,

Os corpos esquartejados pelo chão, nas cadeiras, nas mesas tingidas de sangue.

Sangue,

Pedaços soltos de um todo morto.

Sangue…



Eu a olhar os meus pés sobre o passeio; ouvir as vozes lá dentro, o silêncio dentro de mim enquanto inspiro o ar fresco e húmido de Paris. A lua branca, mais uma vez, mais uns segundos, pelo meio da neblina. Voltar para dentro e tudo ser mais fácil.

Figuras pontilhadas a olharem uns para os outros sem nada dizer, pelo menos de importante. Olhares e silêncios que denunciam os possíveis desencontros e as impossíveis solidões de todos consigo próprios. Em torno, o mundo apresenta-se festivo e mesmo os olhares solitários das figuras algum brilho emanam; uma vaga esperança de que alguém declare que os ame, sem medos, mesmo sem pretensões face à realização desse amor.

Um casal de mãos dadas, voltados de costas um para o outro e as mãos a resvalarem no fracasso da sua relação. Ele de olhar perdido, fixo no chão, fixo na ausência de alguém em si mesmo ou em alguém real mas distante. Ela a olhar em volta, como quem procura o incerto, o desconhecido, talvez mesmo aquele que, ao longe, tenta observar disfarçadamente todos os seus movimentos. Ela, não o vê. Ele pousa os seus braços, sem força, em volta do corpo da sua acompanhante e o mundo frenético que os rodeia quase pára. As mãos dela resvalam no abismo de não encontrar, apesar de aparentemente as erguer para arranjar o cabelo. Ao longe, ele, o outro, percebe a melodia harmoniosa de tal gesto, em compasso com as folhas de carvalho que se entrechocam no sibilar do vento.

Ao seu lado, sentados numa mesa, frente-a-frente, dois casais golpeiam-se com jogos triviais de infidelidade. Um bêbado, que sobre eles se debruça, grita impropérios fúteis de quem não está bem consigo e, logo, com todo o mundo que o rodeia. Poderia ser um filósofo preso a um quarto de águas furtadas, a uma secretária cheia de folhas escritas, mas conhece demasiado bem a realidade para teorizar sem dor, sem que grite de quando em vez a pessoas reais.



Marguerite diz-me que sentiu a minha falta. No copo reservado à água, duas beatas a navegar na tormentosa constatação de ter sido absurdo sair para ir fumar. Ela sorri. Os convivas tossem, a fingir algum desconforto com as suas atitudes. Sinto-me então à vontade para manifestar o meu apreço pela sua obra. Faço-o de forma formal, por temer uma reacção inesperada de sua parte e de assim ser mais fácil inventar desculpas. Ela diz-me.

- Tens de ser o gato preto que vagueia pelas realidades e de inventar o teu mito. Rimbaud, por exemplo, morreu feliz, liquefeito no seu drama. Inventou a modernidade no mais fundo da sua gruta, sem medo. Fugiu à comuna de Paris porque aí a morte não o procurava, assim como a verdade o enfrentava de vergasta, empurrando-o ao degredo. Do amor em ruína fez-se meretriz; urdiu-se Rás do deserto da sua trama; questionou o silêncio sem vaidade e sucumbiu febril por ser seu O Segredo. De que serás tu capaz?

Eu não sou capaz de acreditar que estou a ter esta conversa com ela. Não consigo olhá-la nos olhos com a mesma sinceridade com que ela domina os meus. Depois, aquela falta de brilho, que se pode atribuir aos visionários, a eclipsar a minha procura por um registo informal, que há anos não revisito.

Peço um martini com gin e calo-me, absorto de toda a gente, exceptuando Marguerite. Ela acende um cigarro, como quem faz por não dar conta de acto tão absurdo. Calamo-nos ao longo de todo o jantar. Concentro-me na mulher morena do fundo da mesa, nas pausas dos talheres pausados. Ela, toda delicadeza, pega nos seus talheres e saboreia cada garfada que conduz aos seus lábios finos. O tangas do Shakespear continua a debitar ao longo do repasto. Ela, impávida, parece saborear sonhos distantes desse lugar, permitindo-se sorrir para todos os interlocutores que a rodeiam. Abandona o sorriso quando percebe que a observo ao longe. Fita-me por uma fracção de segundo, mas o seu desviar de olhar desconcerta-me e intimida-me mais do que se me enfrentasse o meu arrogante olhar atónito.

Por todo o resto do jantar Marguerite continua calada, absorta, mas com ar racionalmente ébrio que sempre lhe adivinhei. Ao voltar-se descaradamente para mim, fá-lo com um brilho opaco e distante de quem tudo entende com uma frieza distante, de quem se omite de criticar, pese embora não mascarar as realidades com potenciais fins felizes. Tanto que um silêncio pode comportar, como me pode perturbar o silêncio da morena distante, no jogo de cruzares de olhares que nada dizem, mas que, de forma crescente, me absorvem por isso mesmo.

A noite traz chuviscos, ao sairmos do restaurante. Resolvemos subir até ao Sacrée Coeur e Marguerite diz que quer estar acima dos mortais ao meu lado. Podemos falar um pouco sobre isso, talvez. Eu ouço-a, mas estou a sorrir para a morena que, mais uma vez, concerta o cabelo curto, escorrido, preto, perto da franja, afastando para trás da orelha a madeixa que lhe tocava languidamente o canto da boca. A especialista em Simone de Bouvoir, com o seu cabelo apanhado rigidamente atrás da cabeça redonda, opta por se assoar ruidosamente, como forma de protesto perante a sua pose. Desta feita, o tangas do Shakespear debruça-se sobre o paredão, calado e com ar derrotado. Fala o tangas do Ginsberg, que é gay, mas que a morena não sabe, fazendo-lhe dedicar-lhe toda a atenção para o resto da noite.

- Ainda não percebeste nada, afinal. – Diz Marguerite sem expressão.

- Vou perceber depois. Assim é melhor. – respondi.

Todas as luzes da cidade se concentram nos seus olhos cansados descrentes. Dá a impressão que se despede com uma pena contida, descrente de si própria. Eu, de forma fria, não lhe atribuo a devida importância; não lhe dou a verdadeira atenção que a sua alma gigante exige.

A noite está clara, fria, mas apetece-me despir e urrar sobre a urbe. As luzinhas laranja guiam os perdidos e as brancas, mais dispersas no profundo da noite, são as vidas exuberantes dos mortais, antes de se recolherem às suas camas confortáveis, sonharem e serem eles próprios por umas horas.

Marguerite suspira, quando as pessoas tomam forma de grupo que decide onde ir a seguir. Salto para fora do meu umbigo, o buraco negro que tenta sugar a morena, e pergunto-lhe se quer companhia para casa. Diz-me que a acompanhe à estação do metro, sem desculpas sobre incómodos hipócritas ou quaisquer outras considerações sobre a minha oferta. Gosto dessa forma lacónica de estar.

Na penumbra cinzenta da estação Barbès-Rochechouart, Marguerite fez-me uma carícia na cara e deu-me um beijo condescendente nos lábios ao partir.

- Corre rumo à tua tragédia, português. – disse-me. Sem medo. Corres o risco de viver muitas vezes feliz pelo meio da tua angústia dominante. Não me escrevas.

Subir então a calçada, todas as calçadas da cidade até chegar ao Templo. Pelo caminho tropeçar em pessoas que, inadvertidas do meu alheamento contra mim vão. Aí chegado, procurar um antro com música, onde não encontro os meus convivas de jantar nem a morena, e afogar o resto da alma em álcool. Ficar atordoado, tóxico e resvalar o olhar sobre a multidão que, neste momento, me dão pena pelas suas vidinhas insignificantes, quando a angústia maior nasce da minha não ser diferente. Cobrir-me lentamente de silêncio pelo resto da noite.

Perdido na vertiginosa queda de ignorar os que me rodeiam, a tua ausência é saudade; o corpo que balançava suavemente, ao ritmo da música. Um novo olhar; como uma nova faca atirada contra o meu corpo sensível a olhares, far-me-ia despertar. Um espaço, uma arquitectura vulgar, para que tenha um canto que tu não preenches com a tua forma sublime de ser discreta. Logo depois o ridículo a reter-me na tua imagem, quando não te ouço, quando não imagino sequer o que dirias perante a actualidade política, de acordo com a tua moralidade e, sobretudo, que história que história carregam todas as coisas que te tornaram mais humana e menos sublime. Da profundidade que transportas nem um som, nem um cheiro, que a mais simples ideia assim, enquadrada.

Não aqui,

Não agora.

Ou a ténue desilusão de me dispersar, na medida em que falarias de roupas, de marcas, de coisas palpáveis e concretas, perspectivas dogmáticas que te deram e aceitaste sem questionar.

Não aqui,

Não agora.

No dia em que o teu sorriso for mais que pose ou quando eu conseguir entender a tua pose como mais que um sorriso, um arranjar de cabelo; com qualquer um dos cenários idílicos que a tua beleza pura inspira.

Desejava carpir as minhas mágoas numa pista de dança, infecta de poças de cerveja, de beatas infectas de cerveja, num corpo em que o sexo não se impusesse, em que tudo pudesse acontecer. Ao invés, piso uma tábua de sobriedade, uma realidade arquitectónica regular qualquer que acabei de inventar. Inventar é tão fácil quando se manobra o passado sem remorsos. Remorsos de não me ter aproximado de ti e de dizer o maior impropério que me aprouvesse; tocar o teu cabelo com a ponta do nariz e sentir o teu cheiro, aspirar toda a tua alma e, daí, adivinhar tudo o que és, a coisa vasta que se expande no meu querer e me domina, me escraviza, ou uma coisa suave que se entranha sem que ninguém dê por isso.

O meu jazz não é bem este que ouço no topo de Paris, sobre o mundo de Paris que anoitece num sábado. As pessoas respiram calma e transpiram serenidade. O swing apresenta-se forte desde o início, mas como uma bomba prestes a explodir, com um compasso crescente. Sim, o Milestones cantado pelo Chet. O meu jazz desta hora, neste sítio, é esse. Não caio na lamechice do autor. As pessoas, de facto, apresentam-se como formigas perante os meus passos de gigante. Um dia esse edifício irá desabar. É o meu último resquício pessimista da noite que o diz.



Pela manhã, no caminho de regresso à minha realidade, na Place du Tértre, encontro-a de perfil, numa esplanada, a tomar o pequeno-almoço, uma mão a pousar gentilmente sobre a chávena de chá, enquanto sorri, doce, para o livro onde pousa a outra. Aproximo-me e pergunto-lhe se me posso sentar. Depois apago o meu pensamento, enquanto ela sorri e debita ideias que não ouço, ofuscado pelo brilho que distribui com os seus gestos suaves, embalado nessa sonoridade acústica com que fala, disperso na ofuscação do fundo que lhe atribui aura de gigante.

No regresso de cada um ao seu hotel descobrimos que estamos no mesmo, au Jardin du Luxembourg. Nas despedidas, pesa o constrangimento de nos termos de apresentar formalmente um ao outro, de termos de partilhar o mesmo táxi, a mesma vista sobre o Sena, que lentamente se destapa da neblina e desperta da penumbra. Felizmente o restaurante do hotel não encerra e podemos partilhar mais um pouco as ideias da vida que ambos somos, um ao outro.

Tudo o resto é silêncio pesado, o seu corpo firme que se ergue, enquanto me olha fixamente, na pose lânguida de matrona de Klimt; a força esmagadora da sua presença a quase impedir-me de me erguer do sofá; a sua mão, volátil, que se oferece discretamente a indicar-me a direcção do paraíso.



Chegar à Rue Lamarck, fazer o jantar lentamente e pensar, pensar seriamente em assuntos que se adiam, na forma irresponsável de querer viver breves momentos de felicidade e, portanto, ignorar por completo a realidade. A Realidade! O que ela importa, nestes dias em que a Paixão se reanima lentamente no corpo, em pequenas acções do quotidiano, do seu quotidiano? O que importa quando Marguerite se exauriu na imortalidade que construiu e Paris perdeu uma luz tão incandescente? Poderia dizer nada, mas seria injusto para comigo, com a ideia que se elevou no meu pensamento neste final do dia, não tenho sido honesto comigo, consequentemente com os outros; não tenho sido honesto na paixão que o meu corpo quer sentir e que eu, teoricamente, não deixo.

Deixar livremente reter-me no olhar silencioso que brilha sobre outros olhos; deixar que os dedos que se tocam, se entrelaçam, sejam efectivamente símbolo de afectividade; deixar que os laços se criem, para que se destruam com o passar do tempo. O tempo…que se adivinha.