terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Szimborska (02/07/1923-01/02/2012)


O dia nasceu chorando. Não sou eu que, triste, o vejo assim; não. O dia nasceu chorando todas as minhas mágoas e, por isso, prossegui incólume perante as nuvens carregadas, vindas de latitudes mais a Norte. Os passos largos e lentos, com que percorri as Avenidas, tinham atribuição melancólica pelo colocar de mãos nos bolsos laterais das calças. Destes, vazios, nada retirei nem nada acrescentei ao nada que os dominava.

Metaforicamente o pensamento seguiu o exemplo por todo o tempo de caminhada e as mãos acomodavam-se mais abaixo, como se afagassem essa inércia dolorosa.

Sim, havia dor.

Não. Subentendia-se a dor, ainda que ausente dos receptores neurológicos mais ínfimos.

 Sentir a Melancolia sem questões de maior, sem surpresa; não a pensar, dissecar, nem mesmo contra ela lutar. Vergar apenas ligeiramente a coluna perante a sua grandeza, como quem cumprimenta reverencialmente um pensamento puro que se aproxima em bruto.

São tempos perigosos, estes que percorremos. As pessoas esquecem-se de amar e o Amor perde força face a uma ideia de liberdade ressequida, completamente errada perante os conteúdos inerentes a tão poderoso estado de espírito; LIBERDADE.

O idealismo tornou-se um beco sem saída; húmido, escuro, esquecido nos pensamentos inerentes à urbanidade.

O saber científico e a tecnologia, compartimentados em formalismos, são como diques dispostos na costa, contra a força das marés, da dinâmica geográfica que, pretensiosamente, pensamos dominar.

O cérebro contrai-se deixando resíduos mortos como lixo acumulado em docas secas; portos onde, há muito tempo, ninguém atraca.

A aventura face ao desconhecido VENDE-SE ÀS POSTAS e em PACOTES devidamente homologados pelas autoridades mundiais. Chamam piratas e terroristas a esses livres de nós e presos a si, que percorrem espaços remotos e isolados lutando diariamente pela sua sobrevivência.

Já os nómadas apresentam metamorfoses desesperadas que adiam a sua inevitável extinção. Alguns grupos de activistas, que tentam impedir a tragédia, ganham asas de borboleta e a sua força sucumbe pela efemeridade utilitária de tais apêndices.

Ontem, a minha dor pedia tréguas ao mundo infecto de sangue, do seu cheiro forte, da sua cor marcada em contraste à paisagem queimada. O caos anunciava a criatividade.
Ela ali está, sentada na compenetração do seu acto auto-destrutivo. Antes do pano baixar colocará gotas a mais do veneno que fortalecerá o Absinto. Seguir-se-á o silêncio que o esvaziar da sala anuncia. Szimborska colocará a mão na garganta esboçando um sorriso. Eu apertá-la-ei buscando o limite entre o prazer e a catarse.

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