terça-feira, 3 de abril de 2012

So blue...


Pelo meio do silêncio, que sucede à tua simpatia circunstancial, sinto raiva até ao aflorar de uma lágrima. Prendo-a na garganta enquanto me afogo em perguntas e respostas sem nexo, enquanto, lá fora, o mundo festeja a minha queda.
Le bon printemps...                                                                                                              
ou a imortalidade a que nos entregamos, que nos escraviza, e que torna a memória efémera...mas será ela tão importante assim?
e o tempo serem estilhaços de prazer, de entrega somática à existência...e a existência serem estilhaços de saudades do tempo que na memória se apagam lentamente, como a carne se dissolve em questões concretas, fáceis, tão inocentemente absurdas.
So blue... essa plástica melancolia de desejar pelo meio das distâncias e da impossibilidade de partilhar desejos. Voar sobre labirintos de água, terra, fogo e ar e perder-me nas tormentosas chamas da carne, na volatilidade firme da luxúria.
A lua a gotejar sorrisos em espiral, sobre tudo e todos, sobre nós próprios, os incautos amantes solitários, a vitimizar pelo poder das palavras; a tinta negra que fere, que arranha, que esventra a alma no limbo, onde os anjos se revoltam contra os deuses e por si próprios assumem o poder da criação, como os corpos que se enlaçariam em fluídos quentes e de odor forte. Dois corpos. Um corpo. Um grito e toda a revolta contida numa implosão energética de antimatéria; o buraco negro de todos os momentos futuros.
A coragem do último sorriso,  quando a ternura é amarrotada pelos desencontros e me sinto perdido na cidade e me embebedo de azul e sonho e sorrio e amo e corro e danço perdido em mim; quando a luz da manhã se esbate na realidade luminosa dos dias e só a solidão me abraça depois da festa que é viver.
Pintava-te! Primeiro desenhava palavras soltas, na cinestesia das curvas. Depois, numa plenitude de caos monocromático esborratava o desejo, com palavras soltas de um poema onde a ternura escorreria por cada recanto de um corpo em metamorfose.
Enfim, libertar um momento de especial sensibilidade; o improviso da dor; a animalidade da solidão, quando o corpo descobre a memória da alma que não encontra e nada fica tudo se apaga na raiva do tempo. Saudades dispersas pelas ruas onde o amor é o tempo suspenso, em espaço circular, estremecido, desfragmentado no gotejar adormecido da lua.

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