sábado, 28 de abril de 2012

Sofia




Sinto falta da distância próxima do teu cheiro, nas tardes de ressaca cinematográfica, quando me davas abrigo; uma espécie de carinho ausente; uma promessa de afago nunca efectuado; as linhas do deserto onde a minha visão se infindava num horizonte quente...perdido...descrente de toda a possibilidade de um dia fingirmos que nos amávamos.

Sinto a tua falta dias inteiros; das madrugadas em que o silêncio oculta as multidões amorfas de autómatos, num limbo catatónico, na ausência de objectivos válidos para enfrentar os futuros, aos pôr-do sol quando todas as coisas se evidenciam para além de si próprias, no nosso íntimo que tudo tenta compreender. Sinto a tua falta em todas as frinchas de diálogos, que transportam o ar fresco da desconstrução frenética, na ausência da crítica, na abstenção voluntária sobre todas as catarses possíveis.

Penso em ti, na tua presença etérea, quando verdades supremas assumem ecos sublimes contra as janelas fechadas das ruas e as fachadas teimam numa regularidade arquitectónica de cadência monotónica. Desejo-te quando as ruínas sopram decadência e apenas regurgitam calçadas cansadas que se estendem sob os meu pés. Aspiro à tua companhia quando assomo às aguas furtadas da minha dor, da minha felicidade conquistada às aberturas que transpiram a luz morna do final do dia.

A solidão deste momento é a ruína do orgulho; o olhar atento no espelho onde se reflecte a cobardia enrugada de nunca ter tido força para te conquistar. Tu, a Praça-forte magrebina que marca o ínicio de todos os becos para os mundos seguintes, no deserto das minhas intensões. Os mundos seguintes ao alcance do sonho e dos vastos horizontes que escondem todos os labirintos que os enredos humanos tecem. Ah! O medo dos membros cativos da vontade de um só passo. O medo a rir-se no espelho durante a escovagem de dentes.

A ironia a caminhar lenta para o leito gigante onde rebolo o exorcismo dos fantasmas, guiada por uma sarcástica luz ténue de vela. O cetim preto a arranhar-me a vontade de ser ontem...ou de ser outro amanhã e o momentâneo engole-se em seco, enquanto o grito se obstipa nos olhos cabisbaixos sobre o caos que ainda não se engavetou.
As prateleiras aninham as vozes descompassadas dos contos mais lacónicos, das morais mais afiadas. Ouço-as todas ao mesmo tempo e escondo-me nos interstícios da desculpa de não entender o que não quero...tímido, absorto da maior importância que é amar-te. Cerro os olhos como quem procura aí o silêncio. Encontro os teus cabelos a enredarem-me as cruas verdades nos dedos, o brilho dos teus olhos a calar a poesia toda e o sabor dos teus lábios a envenenar tudo o que julgo ser certo.

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