sexta-feira, 18 de maio de 2012

Helena


És Helena de Troia, a desculpa fácil que os homens encontram para travarem todas as guerras; a aura incandescente que os condena ao perpétuo exorcismo das suas paixões. Pensas que serão os teus olhos que ofuscam a sua racionalidade, que os atraem, como se emanassem um canto mudo de sereia e toda tu fosses um penhasco, uma tragédia escondida, mas previsível. Aprendeste desde cedo a defender-te da facilidade com os guerreiros querem tomar a tua débil fortaleza e, penso eu agora, ainda bem, que existem algumas muralhas que deixem as civilizações preservadas da devastação bruta da facilidade; como se fosses o velho da montanha escondido na sabedoria da sua biblioteca e a tua existência fosse a promessa do paraíso para todos os que se encontram perdidos.
O timbre da tua voz, melódico como a rebentação ligeira do mar numa enseada solarenga, a ecoar melancolias sobre as areias da praia, desde a janela onde se cativam os teus temores. Serás a pena e o remorso que soçobraram das feridas não cauterizadas dos moribundos e a esperança e a força da renovação, que brota das fontes da cidade sitiada. És o canto cadenciado dos escravos que miram as estrelas, na congeminação da derradeira revolta e também és o sorriso dos inocentes que aprendem a crueldade do mundo na última história antes de adormecerem.
O teu corpo é divino, ainda que rodeado por uma alma sujeita aos caprichos dos mortais. O teu olhar emana sonhos que não vais conseguir ter em noites inquietas de insónia, submersa que estás nas realidades do destino que te forçam a aceitar. Navegas pelos espaços com movimentos doces e serenos, para disfarçar a turbulenta preocupação pelos destinos da humanidade que conheces; a pose de quem tem milhares de filhos e, no entanto, nenhuma prol a quem entregar o futuro.
Cada um escala as montanhas que se oferecem à sua vontade, pela dificuldade que tornará o cumprimento do objectivo mais grandioso. Todos sentem impulsos fortes, nem que seja o de não sentirem impulsos. Alguns se vergam perante o peso da carência abjecta, que a sociedade se omite de transformar em verdadeira devoção momentânea. Outros se revolvem na excrementícia imaginação para com a flagelação do Desejo.
A tua vontade um manifesto que não aflora para além do pensamento que, eventualmente, se pode intricar num sorriso esboçado. O teu deleite, um mar morno, estático e, mesmo quando a tormenta cinzenta se vislumbra no horizonte, parece que o sol te cobre e transforma toda a tragédia humana numainevitabilidade mais fácil.
O mar contra os rochedos, como toda a força que a ponta dos teus dedos concentra na umbreira da janela, perante a praia tingida de sangue; o grito mudo; a dor imensa de não ter um outro amanhã. Onde estás, nesse momento, há uma luz baça sobre a realidade; uma névoa a suspender-se do sonho; a cor grita a angústia como a sede de viver.
Duvidas dos deuses que te elevaram ao pedestal dos imortais. Nem sempre és lírica e aprendes a cada segundo a não te aprisionar na luta contra as distâncias, contra os afastamentos a que elas conduzem. No sentires da devoção, sublinhas o pulular de vida na paisagem seca, lembrando os regatos tímidos das montanhas e o brilho distante das rochas, que te transporta para lá de todos os espelhos que a tua imaginação consegue alcançar. Na distância do refúgio, não assumes a permanência da saudade dos tempos da paz morna, mas um desejo desenfreado de te consumires à exaustão no drama que te oferecem.
Surges na simplicidade dos momentos a que nada se exige; quando a turba assustada se dissolve num silêncio momentâneo e a refrega que se tem ainda de cumprir quase se esquece da tua existência; quando se chega ao final do dia ao conforto e à solidão de cada um com os seus fantasmas; quando ao lavar das feridas, a preparar o entre sono da vigilância, a massa encontra um alento na idealização do teu sorriso ténue. Se conhecessem o brilho dos teus olhos, todos eram Aquiles sem calcanhar. Se conhecessem a doçura da tua voz todos eram incapazes de matar por ti.
Viva o movimento perpétuo da luminosidade difusa dos espaços onde circulas! Bem hajam, esses olhos concretos onde uma aura irreal se concretiza em ruídos de dor! Avé à harmonia do caos, onde os ouvidos navegam, rumo à ortogonalidade das tuas palavras melódicas! Salve os encadeamentos da realidade, que esfaqueiam a carne das multidões com a lentidão sádica do medo!
Na camuflagem equídea a guerra ainda crepita. Trompas anunciam a paz depois do horror; a catarse da solidão das ruínas. A tua voz esbate-se dentro do silêncio inteiro que se sente perante a beleza sem conteúdo. Os guerreiros perdem-se nas areias, a revolver a inquietude que a Lua crescente mente com o seu brilho. A humanidade perde-se no mito. A beleza prostitui-se nos domínios da Arte. Os poetas ganharão todas as guerras.

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