quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Manifesto Re-Factory



‘Everyday, something new.’

John Cale, sobre ‘The Factory’

Porque estamos fartos da crítica vazia do ‘não se faz nada neste país’.

Porque sentimos que se critica mas não há iniciativa, não há vontade, há inércia criativa.

Somos pela música como forma de expressão, como forma de intervenção, como forma de arte única e excepcional.

Somos pela música. Somos pela alma. Somos sentimento.

Queremos reinventar o espírito de uma já ida ‘Factory’: respirar uma subcultura, revolucionar os limites do politicamente correcto, viver fora da caixa, fazer a apologia da arte enquanto parte integrante, incontornável e inevitável da vida.

Somos muito mais do que um mero evento. Somos o pré-anúncio de um movimento. DO movimento.

Somos pelo rock, pela anarquia do som, pela música só pela música. Sem intuitos mercantilistas que subvertam tudo quanto a música realmente é – somos contra a pseudo-música.

Somos pela tradição do rock na qual crescemos, somos por Coimbra como embaixadora inabalável do rock português.

E somos pela manutenção e sedimentação da nossa existência subversiva.

Queremos mais, queremos escorraçar o marasmo do sedentarismo das almas, queremos incentivar, empurrar, exaltar a criação artística, queremos um boost cultural.

Queremos proporcionar um espaço que transcenda o físico, um espaço aberto à criação sem barreiras nem lugares-comuns, mostrar a arte que por aí se faz e não encontra voz, por não ter como gritá-lo ao mundo. Queremos ser o microfone. Queremos amplificadores no máximo.

Somos contra o mainstream e contra todos os pr[é]conceitos musicais.

Queremos EXPLODIR em notas. Queremos MAIS, sempre MAIS e MELHOR. Queremos todos os dias algo diferente.

Somos pela música. Somos pela arte. Somos por todos.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

A explosão


Cartaz do evento Re-Factory, a ter lugar em Coimbra próximo Sábado. Leitura d' A explosão.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Szimborska (02/07/1923-01/02/2012)


O dia nasceu chorando. Não sou eu que, triste, o vejo assim; não. O dia nasceu chorando todas as minhas mágoas e, por isso, prossegui incólume perante as nuvens carregadas, vindas de latitudes mais a Norte. Os passos largos e lentos, com que percorri as Avenidas, tinham atribuição melancólica pelo colocar de mãos nos bolsos laterais das calças. Destes, vazios, nada retirei nem nada acrescentei ao nada que os dominava.

Metaforicamente o pensamento seguiu o exemplo por todo o tempo de caminhada e as mãos acomodavam-se mais abaixo, como se afagassem essa inércia dolorosa.

Sim, havia dor.

Não. Subentendia-se a dor, ainda que ausente dos receptores neurológicos mais ínfimos.

 Sentir a Melancolia sem questões de maior, sem surpresa; não a pensar, dissecar, nem mesmo contra ela lutar. Vergar apenas ligeiramente a coluna perante a sua grandeza, como quem cumprimenta reverencialmente um pensamento puro que se aproxima em bruto.

São tempos perigosos, estes que percorremos. As pessoas esquecem-se de amar e o Amor perde força face a uma ideia de liberdade ressequida, completamente errada perante os conteúdos inerentes a tão poderoso estado de espírito; LIBERDADE.

O idealismo tornou-se um beco sem saída; húmido, escuro, esquecido nos pensamentos inerentes à urbanidade.

O saber científico e a tecnologia, compartimentados em formalismos, são como diques dispostos na costa, contra a força das marés, da dinâmica geográfica que, pretensiosamente, pensamos dominar.

O cérebro contrai-se deixando resíduos mortos como lixo acumulado em docas secas; portos onde, há muito tempo, ninguém atraca.

A aventura face ao desconhecido VENDE-SE ÀS POSTAS e em PACOTES devidamente homologados pelas autoridades mundiais. Chamam piratas e terroristas a esses livres de nós e presos a si, que percorrem espaços remotos e isolados lutando diariamente pela sua sobrevivência.

Já os nómadas apresentam metamorfoses desesperadas que adiam a sua inevitável extinção. Alguns grupos de activistas, que tentam impedir a tragédia, ganham asas de borboleta e a sua força sucumbe pela efemeridade utilitária de tais apêndices.

Ontem, a minha dor pedia tréguas ao mundo infecto de sangue, do seu cheiro forte, da sua cor marcada em contraste à paisagem queimada. O caos anunciava a criatividade.
Ela ali está, sentada na compenetração do seu acto auto-destrutivo. Antes do pano baixar colocará gotas a mais do veneno que fortalecerá o Absinto. Seguir-se-á o silêncio que o esvaziar da sala anuncia. Szimborska colocará a mão na garganta esboçando um sorriso. Eu apertá-la-ei buscando o limite entre o prazer e a catarse.