sexta-feira, 26 de abril de 2013

Blá. Blá. Blá.

A tristeza, a inquietude, a ansiedade sobre as coisas inanimadas, animadas, materiais e imateriais é minha. Não pertence a mais ninguém porque não a vendi, troquei por algo do mesmo valor intrínseco, dei ou empurrei como quem dá aos outros o que não quer para si e os outros que se amanhem, os outros que se lixem. Tudo pode despoletar essa bomba, mas trata-se, felizmente para os outros, de um dispositivo de implosão que só o meu corpo corrói. Nem isso, sou eu que me tenho de dar ao trabalho de o fazer. Existem ajudas, instrumentos preciosos a esse intento; provocam destruição lenta, dolorosa, silenciosa e limpa – coisas fantásticas que a criatividade humana consegue criar. Inventam-se detonadores musicais, poéticos com musicalidade ou sem ela, literários com verticalidade melódica ou sem ela, panfletários pelo que as pessoas reclamam e, sobretudo pelo que não dizem sobre pretexto algum. Olhar-lhes as faces carcomídas de problemazinhos quotidianos e a porra da felicidade uma aura que não lhes pertence, que não querem para nada que lhes dê cor aos actos mais simples. Afoguem-se nas multidões encarneiradas do pensamento acrítico; deixem as ilhas submergir da imundice e que os vulcões expludam lavas incandescentes que ninguém jamais tocará até que petrifiquem, até que sejam seguras pela alteração química de que o frio glaciar do pensamento é um bom condutor.
Quê? Hã? Quais perguntas qual caralho que os foda a todos. Nem sobre o que não entendem se questionam; filhos pródigos do pensamento apolítico, mas de utilidade cívica no que toca a pagar impostos e a cumprir as normas dos Bons e Certinhos.
Tomem lá o meu cu, ainda que metaforicamente, para satisfazer a os vossos desejos mais profundos, nem que seja o de poderem caluniar e acusar de demência quem nunca lhes deu razões para tal. É uma merda quando a pilha de lenha já está pronta e o cabrão do acusado não quer ser queimado. A praça enche-se e depois há que encontrar razões para que o espectáculo tenha lugar, caso contrário a multidão encoleriza-se, podem mesmo atacar inocentes mais fragilizados pela imagem exterior de que também são culpados. Não, meus meninos, não se podem atacar inocentes porque isso é injusto pelos auspícios dos sumos sacerdotes da Grande Igreja dos Conceitos Puros.
Ontem entoava cantos ao nascente alaranjado, no alto minarete da minha existência. Hoje, ainda o sol não tinha despontado do horizonte e já me havia extinguido com a luz da estrela polar. Amanhã será outro dia e isso ir-me-ia chatear se eu existisse agora. Blá. Blá. Blá.

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