terça-feira, 23 de abril de 2013

New Orleans

Deitarem o meu corpo a um rio de pouco caudal, onde se desfizesse nas horas e nos dias lentos de outras vidas; que antes dessa disposição anónima numa margem qualquer, se fizesse uma enorme parada de metais...New Orleans on my mind...e estivessem muitos...estivessem todos.
Os antepassados próximos, dos quais se receberam pequenas marcas das suas imortalidades efémeras; heranças distantes que nos caem em cima quando somos adultos e o tempo corre sem tempo para pensar. Os anónimos nomes de gente, de toda a gente de que se ouviram histórias, nem todas correctas em termos morais, nem todas com um profundo sentido de justiça ou de exemplo a colher mais tarde. No entanto, ervas daninhas que também dão algo de si no equilíbrio das coisas, no conjunto final do que sou agora, agora, agora...
As marés altas e baixas do que são amigos e os seus umbigos ou a sua entrega ao nosso swing-buraco-negro que tudo suga em sem redor; as múltiplas árvores que compõem a floresta onde nos abrigamos e também a alma de toda a floresta...uma única alma de toda a floresta que a todas as sombras se sobrepõem, que compõe todos os interstícios por onde a luz directa do sol beija a camada humosa ao longo do dia... que é mesmo essa camada humosa e cheia de vidas quentes...as nossas vidas...por vezes adormecidas, frias...
Oh fuck! A solidão beep-bop que ressalta da espessura da noite, quando as esplanadas se arrumam e o vento frio de verão, que existe por umas breves horas, nasce e se mostra. A pele de galinha que mostrarias até ao teu ombro nú quando te beijasse o pescoço e sentisse o meu bafo a álcool intenso a fazer ricochete. Quando essa cabeça, oca de entrega total por instinto, descaísse no cansaço físico sobre esse mesmo ombro e o teu sorriso me erguesse a alma toda num único instante ou um simples afago na face rugosa da barba crescida alentasse contra todos os infortúnios do passado.
Oh fuck! O corpo a desfazer-se pela primeira micro-fauna que se ergue nas margens, já os lenços brancos se acomodaram à muito junto ao pesar da morte, nos bolsos e os bocais foram limpos durante a última cerveja silenciosa da orquestra na esplanada. À noite, já sem olhos, o corpo vibrará ao som dos que teimam em recuperar algumas moedas dos transeuntes, ou dos que só vivem para a música e por isso ali estão. Os amigos sentados na comodidade dos que lhes estão próximos e ainda vivos e os outros amigos, os sós, os inquietos, a babarem lágrimas e sobriedade pelo meio das drogas a que se entregam nesses momentos de dor.
Os antepassados em fila, a entrelaçarem-se na minha energia que se dispersa nas árvores de uma extensa floresta. Aqueles com quem se cruzaria um olhar cabisbaixo, de arrependimento sobre as ridículas tramas em que descondicionamos o amor; os outros com quem se trocariam sorrisos e silêncios de quem tem tudo a dizer por toda a eternidade. Amar na eternidade, navegar nessa certeza, é a derradeira magia do ser e não são estas palavras que tentam encerrar tudo o que de belo se poderia dizer sobre isso.
Já o corpo se desfaz em pó; os ossos calcinados pelo desgaste natural e toda a eternidade do amor se reinventa ainda em todas as formas de arte. Que os metais se acoplem em todos os festejos de vida, ainda que cumprimento final de vida. Que os amigos não se predam em enredos absurdos ou que façam os filmes obtusos, que procuram reinventar de outras tragédias já percepcionadas. Que para os que insistem na amargura das coisas efémeras do ser se destine um céu monoteísta, monotónico, monótono em todos os planos, e que se juntem todos em nuvens e que chovam sobre as florestas, que bebem o húmus das entranhas quentes da terra e que, aí sim, se tornem em coisas válidas, face à teimosia do futuro.

Sem comentários: