segunda-feira, 29 de abril de 2013

O sussurro

A cada passo que dá pelos ladrilhos ficcionados do passeio em betão, desde que sai do edifício onde se localiza o seu escritório, que ela vai fechando pastas no seu pensamento; assuntos que constituem pequenas tarefas com que o dia de amanhã vai começar. Não pensa nisso, mas repete esse exercício todos os dias. Paulatinamente, com os passos ou com as curvas e contracurvas que o carro perfaz, no quilómetro que a separa de casa, o desligar temporário das responsabilidades; o encontrar-se num outro plano em que se pode assumir mais livre, mais solta de uma pausa de pose apurada em cada ano de experiência.
Hoje segue a pé. Desliga-se mais devagar, sobretudo nos primeiros quinhentos metros onde ainda entremeia o seu silêncio progressivamente mais fundo com as boas-noites que a etiqueta, mesmo a estima que nutre por alguns transeuntes, lhe obriga a debitar. Depois, vem a ponte sobre a estrada que divide a parte central da urbe com os subúrbios onde reside a massa anónima-mas-esclarecida da classe média de que conscientemente faz parte. A par vem a constatação absoluta da espessura da noite, o calafrio do medo antigo de não existir deus à noite ou talvez apenas do vento fresco que sopra ao longo do riacho que a partir daí a acompanha.
Nessa primeira recta de caminho o seu pensamento apenas cita de cor a certeza da curva à esquerda que lhe mostrará a sua casa. Então, ao passar junto ao primeiro aglomerado de canas, o vento assume subitamente uma outra força, como se a natureza lhe transportasse palavras indecifráveis. Não porque se exprimisse mal, mas por ser ela a ignorante do código necessário ao entendimento. Assim se estancam os seus passos, como o seu olhar descai contra os sapatos cinzentos de linhas executivas. Aí, um choro convulsivo a obrigá-la a amparar-se no muro que a separa do riacho; a mão direita a segurar a testa, a proteger os olhos da violência da luminosidade fraca dos candeeiros públicos e o vento a trespassar as canas sem cessar, quais cordas vocais das almas perdidas dos infernos inexistentes a guincharem as suas penas.
Ao anúncio da passagem de um carro, quando a sua sombra dança em espiral pelo chão, recompõe-se num gesto com que retira os sapatos dos pés. Quando o caminho fica livre, pousa-os a medo no asfalto morno e irregular, como quem mede que feridas lhe pode ele provocar e até que medida está ela disposta a ferir-se se insistir em caminhar descalça. Está disposta a muito porque a dor que lhe vem de dentro é mais forte que qualquer arranhão que uma pedra de gravilha lhe possa causar.
Assim alcança a curva, medindo todos os passos para que uma pedra de gravilha não a magoe, esquecendo-se da outra dor mais concreta que ainda não definiu. Nesse ponto, os mesmos cães se aproximam dos gradeamentos das casas para lhe ladrarem os mesmos impropérios de cão a quem os donos ensinaram a não gostar de vizinhos. Ergue o olhar para a sua casa, para a luz da sala que se demarca da escuridão e, na promessa que ela lhe pode trazer de uns braços que a envolvam e que a amparem, a escuridão pouca diferença ter desse foco artificial de luz que lhe marca a meta seguinte.
Nos passos seguintes, sem que tenha reparado como, as meias rasgarem-se nas solas e as malhas contraírem-se até aos tornozelos, apertando a pele, quase como grilhetas. Olha para baixo. Sente-se a descascar. Até se imagina a deteriorar-se por completo por todos os restantes metros; a pele a desfazer-se a cada passo, como a cada passo perder tecidos dos músculos, sangue que os irriga e, desde a porta onde assoma já só com os cotos das pernas, perder membros inteiros de si a cada degrau. Chegada à porta só resta a cabeça para contra ela atirar, como quem grita socorro sem encontrar a voz, para que lhe abram um novo futuro. O companheiro ir abri-la pelo meio de uma eternidade contrariada e, ao fazê-lo, reparar primeiro no rastro de sangue e membros que povoam as escadas e, antes de dizer um cumprimento, por vulgar e monótono que fosse, perguntar sem pedir resposta “quem é que vai limpar toda esta porcaria?”. Pegar-lhe então pela cabeça, esquecendo-se do maxilar inferior em cima do tapete, colocando-a em cima da cristaleira da sala, partilhando o centro com o sírio pascal da redenção, ladeada pela inutilidade dos bibelôs. Partir, por fim, para os afazeres domésticos que outras alas do espaço clamam e deixá-la ali, na inércia que atribuímos às coisas que não no dizem nada.
Desperta quando a força que a chave lhe exige para rodar não transborda do sonho, mas de uma necessidade fútil em que começa só agora a pensar. Entra e ouve o companheiro a comentar, com a lacónica estupidez dos inúteis, “Vens atrasada!”, enquanto acende uma vela, sem cheiro e sem personalidade, no centro da cristaleira da sala.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Blá. Blá. Blá.

A tristeza, a inquietude, a ansiedade sobre as coisas inanimadas, animadas, materiais e imateriais é minha. Não pertence a mais ninguém porque não a vendi, troquei por algo do mesmo valor intrínseco, dei ou empurrei como quem dá aos outros o que não quer para si e os outros que se amanhem, os outros que se lixem. Tudo pode despoletar essa bomba, mas trata-se, felizmente para os outros, de um dispositivo de implosão que só o meu corpo corrói. Nem isso, sou eu que me tenho de dar ao trabalho de o fazer. Existem ajudas, instrumentos preciosos a esse intento; provocam destruição lenta, dolorosa, silenciosa e limpa – coisas fantásticas que a criatividade humana consegue criar. Inventam-se detonadores musicais, poéticos com musicalidade ou sem ela, literários com verticalidade melódica ou sem ela, panfletários pelo que as pessoas reclamam e, sobretudo pelo que não dizem sobre pretexto algum. Olhar-lhes as faces carcomídas de problemazinhos quotidianos e a porra da felicidade uma aura que não lhes pertence, que não querem para nada que lhes dê cor aos actos mais simples. Afoguem-se nas multidões encarneiradas do pensamento acrítico; deixem as ilhas submergir da imundice e que os vulcões expludam lavas incandescentes que ninguém jamais tocará até que petrifiquem, até que sejam seguras pela alteração química de que o frio glaciar do pensamento é um bom condutor.
Quê? Hã? Quais perguntas qual caralho que os foda a todos. Nem sobre o que não entendem se questionam; filhos pródigos do pensamento apolítico, mas de utilidade cívica no que toca a pagar impostos e a cumprir as normas dos Bons e Certinhos.
Tomem lá o meu cu, ainda que metaforicamente, para satisfazer a os vossos desejos mais profundos, nem que seja o de poderem caluniar e acusar de demência quem nunca lhes deu razões para tal. É uma merda quando a pilha de lenha já está pronta e o cabrão do acusado não quer ser queimado. A praça enche-se e depois há que encontrar razões para que o espectáculo tenha lugar, caso contrário a multidão encoleriza-se, podem mesmo atacar inocentes mais fragilizados pela imagem exterior de que também são culpados. Não, meus meninos, não se podem atacar inocentes porque isso é injusto pelos auspícios dos sumos sacerdotes da Grande Igreja dos Conceitos Puros.
Ontem entoava cantos ao nascente alaranjado, no alto minarete da minha existência. Hoje, ainda o sol não tinha despontado do horizonte e já me havia extinguido com a luz da estrela polar. Amanhã será outro dia e isso ir-me-ia chatear se eu existisse agora. Blá. Blá. Blá.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

A Ilha do desespero

O espelho reflectir verdades; sulcos de dor, de experiência necessária ao crescimento, a dúvida sobre essa necessidade. Descair o pensamento para o ralo para depois enfrentar o cansaço do olhar com um ajeitar dos cabelos para trás, com a mão direita de firmeza. Cansaço, desespero, dor; a orla de uma verdade suprema que nunca vem; densa que nunca se avista; sonhada que nunca chega a aflorar os sentidos todos de uma vez. Não existem paisagens abertas que não sejam as águas furtadas do desencanto sobre as coisas. Por vezes, até as sombras estáticas da quase penumbra são demasiado coloridas, dinâmicas pela ideia de futuro adiado que jaz adormecida não se sabe bem onde.
O quarto deveria ser arrumado, mas o violoncelo insiste que se tem de parir a perfeição. Em lado nenhum se avista um ex-marido que nunca existiu; em lado algum o cheiro primaveril de um filho que nunca se quis ter. Só um vazio novo da orfandade a copular o vazio antigo sobre tudo e uma alma sustenida à espera do acorde que ainda se não inventou. Nos próximos dias, o refúgio da normalidade dos vencidos pela morte. O medo subsequente pela vida que se vai ter de enfrentar um dia...tem de ser um dia, como se a perda da bússola da inocência não fosse ainda tudo e agora se partisse o mastro que suportava todos os ventos.
A partir de agora ter de enfrentar a solidão nos olhares dos outros, desejar os silêncios no ruído da multidão, repudiar os silêncios no ruído dos móveis abandonados. Até para destruir memórias é preciso ter forças que se não adivinham ao futuro. A partir de agora o fundo do abismo para onde se saltou e o soçobrar da picareta insistente sobre o solo, como que procura outro fundo onde se exaurir da falta de coragem.
Oh! Esse naufrágio perpétuo nas tormentas viciantes da solidão, quando a linha entre a terra firme e o oceano foi transposta de livre vontade, quando a fronteira para o amor nos apelou à entrega total e depois nos ofereceu um deserto imenso de Medo salgado sobre a insalubridade do fim.
Aqui, no desespero aprisionado por horizontes vastos, a cor pode ser o verde intenso da vegetação onde os sonhos se adensam nas sombras tenebrosas, ou o azul profundo de uma outra gravidade, onde os peixes voam e a sobrevivência obriga a mexer os membros sem parar. Parece que nunca será o alaranjado do fogo do vulcão, que jaz adormecido, talvez morto como a mãe que se enterra no pó basáltico. Esta febre vertiginosa onde balanço a minha palidez; onde adenso a força bruta que contenho em promessas a mim própria; onde não respiro todas as notas que vou parindo.

terça-feira, 23 de abril de 2013

New Orleans

Deitarem o meu corpo a um rio de pouco caudal, onde se desfizesse nas horas e nos dias lentos de outras vidas; que antes dessa disposição anónima numa margem qualquer, se fizesse uma enorme parada de metais...New Orleans on my mind...e estivessem muitos...estivessem todos.
Os antepassados próximos, dos quais se receberam pequenas marcas das suas imortalidades efémeras; heranças distantes que nos caem em cima quando somos adultos e o tempo corre sem tempo para pensar. Os anónimos nomes de gente, de toda a gente de que se ouviram histórias, nem todas correctas em termos morais, nem todas com um profundo sentido de justiça ou de exemplo a colher mais tarde. No entanto, ervas daninhas que também dão algo de si no equilíbrio das coisas, no conjunto final do que sou agora, agora, agora...
As marés altas e baixas do que são amigos e os seus umbigos ou a sua entrega ao nosso swing-buraco-negro que tudo suga em sem redor; as múltiplas árvores que compõem a floresta onde nos abrigamos e também a alma de toda a floresta...uma única alma de toda a floresta que a todas as sombras se sobrepõem, que compõe todos os interstícios por onde a luz directa do sol beija a camada humosa ao longo do dia... que é mesmo essa camada humosa e cheia de vidas quentes...as nossas vidas...por vezes adormecidas, frias...
Oh fuck! A solidão beep-bop que ressalta da espessura da noite, quando as esplanadas se arrumam e o vento frio de verão, que existe por umas breves horas, nasce e se mostra. A pele de galinha que mostrarias até ao teu ombro nú quando te beijasse o pescoço e sentisse o meu bafo a álcool intenso a fazer ricochete. Quando essa cabeça, oca de entrega total por instinto, descaísse no cansaço físico sobre esse mesmo ombro e o teu sorriso me erguesse a alma toda num único instante ou um simples afago na face rugosa da barba crescida alentasse contra todos os infortúnios do passado.
Oh fuck! O corpo a desfazer-se pela primeira micro-fauna que se ergue nas margens, já os lenços brancos se acomodaram à muito junto ao pesar da morte, nos bolsos e os bocais foram limpos durante a última cerveja silenciosa da orquestra na esplanada. À noite, já sem olhos, o corpo vibrará ao som dos que teimam em recuperar algumas moedas dos transeuntes, ou dos que só vivem para a música e por isso ali estão. Os amigos sentados na comodidade dos que lhes estão próximos e ainda vivos e os outros amigos, os sós, os inquietos, a babarem lágrimas e sobriedade pelo meio das drogas a que se entregam nesses momentos de dor.
Os antepassados em fila, a entrelaçarem-se na minha energia que se dispersa nas árvores de uma extensa floresta. Aqueles com quem se cruzaria um olhar cabisbaixo, de arrependimento sobre as ridículas tramas em que descondicionamos o amor; os outros com quem se trocariam sorrisos e silêncios de quem tem tudo a dizer por toda a eternidade. Amar na eternidade, navegar nessa certeza, é a derradeira magia do ser e não são estas palavras que tentam encerrar tudo o que de belo se poderia dizer sobre isso.
Já o corpo se desfaz em pó; os ossos calcinados pelo desgaste natural e toda a eternidade do amor se reinventa ainda em todas as formas de arte. Que os metais se acoplem em todos os festejos de vida, ainda que cumprimento final de vida. Que os amigos não se predam em enredos absurdos ou que façam os filmes obtusos, que procuram reinventar de outras tragédias já percepcionadas. Que para os que insistem na amargura das coisas efémeras do ser se destine um céu monoteísta, monotónico, monótono em todos os planos, e que se juntem todos em nuvens e que chovam sobre as florestas, que bebem o húmus das entranhas quentes da terra e que, aí sim, se tornem em coisas válidas, face à teimosia do futuro.

domingo, 21 de abril de 2013

Tom, espera...

Não sei amar por entre as gotas de chuva, sem que cada uma delas que me toca , fria, na pele, me desperte os tormentos da distância, as angústias do dever a cumprir que obrigam a estar longe. Por vezes, a solidão deixa de ser medo quando é o tempo de espera por estar de novo ao teu lado; quando todas as montanhas existenciais se escalam aos saltos e todas as dúvidas são enclaves onde explodem fronteiras para que os continentes se unam, a preencher os abismos tenebrosos do futuro adiado. Mas, noutros momentos, como agora, o sonho atravessa pontes nuas pelo meio dos temporais e a lua surge repentina, em calmias extemporâneas, para rir sobre a tormenta que se avizinha.
A raiva sobre a falta de força para esbracejar oceanos rumo a ti;
o rancor do frio polar que se sobrevoa no aninhar profundo nos lençois;
o pavor sobre todos esses monstros desconhecidos que se podem inventar pelo meio das sombras.
O teu nome, sílabas de neblinas coloridas onde flutuo, sobre um mar tempestuoso onde todas as Moby Dick do meu poder me esquartejerão o desejo. É quando o ânimo se descai pelos ombros e não tenho o teu cheiro como o único bálsamo que me pode salvar de tudo o que não existe mas se sente. Ao atracar nos portos mortos encontro bares cheios de solidões, copos a fingirem as curvas do teu corpo na ponta dos meus dedos, histórias sempre iguais, como me soam as minhas
agora
agora
agora
aqui, no ancoradouro das almas frias que procuram a coragem contra as gotas de chuva.
Sou Martin Eden a ouvir comícios políticos de clandestinos – o lado certo – como quem procura o sono profundo da ausência de ânsia sobre as coisas do mundo, sabendo cada vez mais, a cada segundo, que a sua verdade jaz na placidez do fundo do mar.
O Amor é, de tudo, o que se cria mais facilmente; basta ter os pianos certos na cabeça, quando as folhas esvoaçam e o tempo finge ser Outono e os trompetes anunciam todas as coisas que ainda se não inventaram.
Que se lixe! Tem de ser! Abraçar os segundos como os meus beijos registam o mapa do teu corpo, como quem chega à alma dos outros a dançar tango consigo mesmo num sambódremo de estupfacção e os amigos balançam na corda bamba do esquecimento fácil sobre tudo o que é importante. Pois, a esperança vem sempre dos metais de uma big band, ou das palavras dos doidos, que têm todo o peso da história nos seus olhos, da sua fome simples por umas calorias que permitam sonhar mais e mais...
Tom, espera...

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Gin

Ter uma garrafa de gin adiada no esconderijo das dores inóspitas, como quem testa o limite da pressão da panela ao lume. Vergar-me para olhar para ela,
não como quem a reverencía, mas por ser necessário, dado o local onde repousa inquieta.
Então, pensar – ou continuar a pensar – insistentemente sobre a ideia de Liberdadade, na catadupa de silêncios que mordem os lábios e se empurram pela garganta a custo. Pontualmente, soltar umas palavras isoladas; uns indecisos
Pois
e uns lacónicos
Vai-te foder
e o braço ergue-se a agarrar o recipiente translúcido, enquanto os dedos doutra mão lhe rodam a tampa; o desvendar da potencial verdade suprema, ou tão só permitir que o odor fresco do alívio aplaque os sentidos.
Tomar uma pose vertical de segurança e tomá-la sofregamente, com o ímpeto de quem tem sede de tudo.
O outro lado...