quinta-feira, 23 de junho de 2016

SemTítulo


Com a caneta suspensa na mão,
disposta a arpoar os silêncios,
abordo todos os inícios numa folha em branco
como quem se abeira do bordo de um navio
e se entrega à dimensão que a espuma ilude.
A terra não tem mar que chegue ao meu horizonte.
Tem o bastante para que não baste!

Nem sempre se tem força para ser sublime,
de seguir pela sombra que dança
com a linearidade finita da luz.

Afundo-me na realidade como num mar;
as pessoas turvas e estáticas
formadas por cores flácidas e dançantes;
num outro lado, povoado
por sons abafados de opacos significados.
Essa realidade onde tudo se desmorona
e onde nada foi construido
e nada foi realmente destruido.

Entrego-me à tempestade flutuando!
Filho de rocha mãe parideira
de corajosos desistentes -
estilhaços que se abismam na vertigem dos dias,
que observam as ruínas que se erguem do lodo
e pensam em subir,
em submergir de novo,
em respirar outro mundo.
Refugiados do sonho
presos nas fronteiras da fé.
Anjos oblíquos a insistir em voar
nunca sendo os mesmos que pousam

e atravessam as portas nos muros.

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